Faz uns dias que eu estava com esse texto em mente, mas não sabia exatamente como colocá-lo aqui, ou mesmo se deveria fazer isso. Não é como se ele fosse extremamente pessoal, mas, quando comecei a escrevê-lo, não sabia se ele se comunicava com a proposta do blog, que é falar de Muay Thai. À medida que fui escrevendo, no entanto, notei que talvez não fosse apenas uma memória específica, mas algo que se comunica muito bem comigo hoje e com a minha jornada no esporte.
Não sei se você já teve a sensação de encontrar um bilhete, um diário ou qualquer cartinha sua escrita há anos. Como eu sempre fui de registrar os pensamentos que eu tenho, esse é um sentimento bem familiar para mim. É um mix de conforto e estranheza. Pois bem, essa memória me causou exatamente esses dois sentimentos. Eu estava de bobeira rolando o feed do Instagram, quando vi um vídeo react de uma cena da série “One Tree Hill: Lances da Vida”. Era a cena da formatura do primeiro elenco. Enquanto assistia, comecei a ser preenchido aos poucos por um sentimento bom e nostálgico, que não estava relacionado à cena em si, mas à série como um todo, mais especificamente ao tempo em que eu a assistia. Vale contextualizar que OTH é a minha série preferida da adolescência. O que me pegou mesmo foi que assistir àquele trecho dela me fez recordar uma época, mais de dez anos atrás, em que eu encontrava conforto nela, num período bastante conturbado.
O pouco que lembro daquela época é que foi um momento solitário e confuso para mim. Eu me lembro de assistir aos episódios da série em algum site de procedência duvidosa, onde cada clique gerava uma enxurrada de vírus. Eu assistia no meu computador de mesa, com os pés em cima da CPU, numa cadeira bem desconfortável. Lembro também que, na época, os desenhos da Peyton (a protagonista da série) eram a minha capa do Facebook — eu no meu dia com menos hiperfoco em algo. Eu até tentei aprender a desenhar. Fiz duas aulas no YouTube e desisti quando não consegui reproduzir uma simples mesa. Foi uma carreira bem breve.

https://onetreehillnewsforum.forumeiros.com/t27-desenhos-da-peyton-oth
O que eu mais me recordo com carinho dessa época era de acordar bem cedo ou ao pôr do sol e sair para caminhar na praça perto de casa, ouvindo a discografia de John Mark McMillan. Pegou-me forte esses dias a lembrança do sentimento que eu tinha, principalmente quando ouvia a música “Ten Thousand”, e ele dizia no refrão algo como “mundo, eu venci você”. Lembro de ouvir isso repetidas vezes, enquanto via o sol se pôr por trás das casas e as luzes da praça serem acesas, uma a uma.
Sabe o que é mais doido? É que, apesar de ter sido um período confuso e solitário — o que qualquer pessoa enxergaria como algo ruim, e é —, eu sinto um estranho conforto com a lembrança dessa época. Quando ouvia essa música, eu era preenchido por um sentimento de grandeza, mas não uma grandeza egocêntrica, e sim o sentimento de que eu era realmente capaz de vencer o mundo. Sempre que essa frase se repetia, ela se traduzia em algo como “dias melhores virão” — livro que também li nesse período.
Eu acredito plenamente em sincronicidade. Então, não acho que essa memória me veio ao acaso. Ela não mexeria tanto comigo, no contexto atual, se fosse mera coincidência. É como se o meu eu de mais de dez anos atrás estivesse tentando me lembrar da sensação de me sentir capaz de vencer o mundo, algo que talvez tenha sido abafado pelo cansaço do processo. É como se o eu do passado tivesse deixado um bilhete para o eu atual.
Acontece que, no mesmo dia em que essa lembrança me veio, ocorreu-me algo bastante interessante. Durante a aula de Muay Thai com o meu professor, lá pelo final, ele me falou que faríamos um sparring. Já fizemos inúmeros sparrings ao longo de quase um ano treinando juntos. Eu não me preocupo em vencê-lo no sparring — porque eu não vou. Também não me preocupo em me machucar lutando com ele. Mas, apesar disso, passou um pensamento muito rápido na minha mente dizendo: “eu não sou bom nisso”. E, de repente, o sparring foi terrível. Eu comecei a luta jogando a toalha. Não consegui usar nem o mínimo das técnicas que ele me ensinou. Enfim, quando comecei, eu já havia perdido.
Agora eu penso que aquela memória de “mundo, eu venci você”, horas antes desse treino, era uma forma de lembrete de algo que vem se perdendo de uns anos para cá. Vejo que o meu “professor interno” me fez olhar para o passado, mas não como uma forma de cobrança, e sim como um lembrete de que eu preciso resgatar este sentimento tão precioso.
Como pode o eu de dez anos atrás, confuso e solitário, se sentir seguro da sua potência; enquanto o eu de hoje, maduro e fisicamente mais forte, duvida de si mesmo? É um paradoxo! Por isso, acredito que o meu “professor interno” tenha tentado me lembrar de que esse potencial ainda existe aqui, dentro de mim.
Depois dessa catarse, conversei com duas pessoas que me inspiram no Muay Thai para tentar entender o que aconteceu. Meu professor me fez olhar para este sentimento de incapacidade com autocompaixão e me lembrou que é normal a gente se sentir inseguro e não sair tão bem quanto se espera.
Também conversei com o professor Luiz Lopes (Luiz Tigrão), que começou um trabalho com terapia somática focado em atletas e artistas marciais. Ele me disse, dentre outras coisas, para investigar a raiz deste sentimento, pois se ele se expressa no tatame, também deve se expressar fora dele. Há umas semanas eu comecei a fazer psicoterapia — que era uma meta para este ano —, então, será o meu trabalho pelos próximos meses ou anos.
Quero compreender a origem desses pensamentos, mas com o intuito de ressignificá-los, não de erradicá-los ou destruí-los. O budismo tem me ensinado a não transformar minha mente num campo de batalha e que a meditação nos ajuda a olhar para estes sentimentos sem se identificar com eles, sem torná-los parte de quem eu sou. Da mesma forma como vêm, eles vão.
No fim, aquela época me fez lembrar que eu sou capaz de enfrentar o que vier. Percebo que a minha batalha no Muay Thai é mais contra mim do que contra o meu oponente. Ainda que o caminho seja mais longo e o processo seja demorado, eu não me permito desistir. Às vezes, precisamos de um bilhete antigo, uma memória ou uma música que nos lembre: “mundo, eu venci você”.
Sawadee krap!
