O Muay Thai como parte da Terapia: Resgatando o Sentimento de que Sou Capaz de Vencer o Mundo

5–7 minutos

Faz uns dias que eu estava com esse texto em mente, mas não sabia exatamente como colocá-lo aqui, ou mesmo se deveria fazer isso. Não é como se ele fosse extremamente pessoal, mas, quando comecei a escrevê-lo, não sabia se ele se comunicava com a proposta do blog, que é falar de Muay Thai. À medida que fui escrevendo, no entanto, notei que talvez não fosse apenas uma memória específica, mas algo que se comunica muito bem comigo hoje e com a minha jornada no esporte.

Não sei se você já teve a sensação de encontrar um bilhete, um diário ou qualquer cartinha sua escrita há anos. Como eu sempre fui de registrar os pensamentos que eu tenho, esse é um sentimento bem familiar para mim. É um mix de conforto e estranheza. Pois bem, essa memória me causou exatamente esses dois sentimentos. Eu estava de bobeira rolando o feed do Instagram, quando vi um vídeo react de uma cena da série “One Tree Hill: Lances da Vida”. Era a cena da formatura do primeiro elenco. Enquanto assistia, comecei a ser preenchido aos poucos por um sentimento bom e nostálgico, que não estava relacionado à cena em si, mas à série como um todo, mais especificamente ao tempo em que eu a assistia. Vale contextualizar que OTH é a minha série preferida da adolescência. O que me pegou mesmo foi que assistir àquele trecho dela me fez recordar uma época, mais de dez anos atrás, em que eu encontrava conforto nela, num período bastante conturbado.

O pouco que lembro daquela época é que foi um momento solitário e confuso para mim. Eu me lembro de assistir aos episódios da série em algum site de procedência duvidosa, onde cada clique gerava uma enxurrada de vírus. Eu assistia no meu computador de mesa, com os pés em cima da CPU, numa cadeira bem desconfortável. Lembro também que, na época, os desenhos da Peyton (a protagonista da série) eram a minha capa do Facebook — eu no meu dia com menos hiperfoco em algo. Eu até tentei aprender a desenhar. Fiz duas aulas no YouTube e desisti quando não consegui reproduzir uma simples mesa. Foi uma carreira bem breve.

https://onetreehillnewsforum.forumeiros.com/t27-desenhos-da-peyton-oth

O que eu mais me recordo com carinho dessa época era de acordar bem cedo ou ao pôr do sol e sair para caminhar na praça perto de casa, ouvindo a discografia de John Mark McMillan. Pegou-me forte esses dias a lembrança do sentimento que eu tinha, principalmente quando ouvia a música “Ten Thousand”, e ele dizia no refrão algo como “mundo, eu venci você”. Lembro de ouvir isso repetidas vezes, enquanto via o sol se pôr por trás das casas e as luzes da praça serem acesas, uma a uma.

Sabe o que é mais doido? É que, apesar de ter sido um período confuso e solitário — o que qualquer pessoa enxergaria como algo ruim, e é —, eu sinto um estranho conforto com a lembrança dessa época. Quando ouvia essa música, eu era preenchido por um sentimento de grandeza, mas não uma grandeza egocêntrica, e sim o sentimento de que eu era realmente capaz de vencer o mundo. Sempre que essa frase se repetia, ela se traduzia em algo como “dias melhores virão” — livro que também li nesse período.

Eu acredito plenamente em sincronicidade. Então, não acho que essa memória me veio ao acaso. Ela não mexeria tanto comigo, no contexto atual, se fosse mera coincidência. É como se o meu eu de mais de dez anos atrás estivesse tentando me lembrar da sensação de me sentir capaz de vencer o mundo, algo que talvez tenha sido abafado pelo cansaço do processo. É como se o eu do passado tivesse deixado um bilhete para o eu atual.

Acontece que, no mesmo dia em que essa lembrança me veio, ocorreu-me algo bastante interessante. Durante a aula de Muay Thai com o meu professor, lá pelo final, ele me falou que faríamos um sparring. Já fizemos inúmeros sparrings ao longo de quase um ano treinando juntos. Eu não me preocupo em vencê-lo no sparring — porque eu não vou. Também não me preocupo em me machucar lutando com ele. Mas, apesar disso, passou um pensamento muito rápido na minha mente dizendo: “eu não sou bom nisso”. E, de repente, o sparring foi terrível. Eu comecei a luta jogando a toalha. Não consegui usar nem o mínimo das técnicas que ele me ensinou. Enfim, quando comecei, eu já havia perdido.

Agora eu penso que aquela memória de “mundo, eu venci você”, horas antes desse treino, era uma forma de lembrete de algo que vem se perdendo de uns anos para cá. Vejo que o meu “professor interno” me fez olhar para o passado, mas não como uma forma de cobrança, e sim como um lembrete de que eu preciso resgatar este sentimento tão precioso.

Como pode o eu de dez anos atrás, confuso e solitário, se sentir seguro da sua potência; enquanto o eu de hoje, maduro e fisicamente mais forte, duvida de si mesmo? É um paradoxo! Por isso, acredito que o meu “professor interno” tenha tentado me lembrar de que esse potencial ainda existe aqui, dentro de mim.

Depois dessa catarse, conversei com duas pessoas que me inspiram no Muay Thai para tentar entender o que aconteceu. Meu professor me fez olhar para este sentimento de incapacidade com autocompaixão e me lembrou que é normal a gente se sentir inseguro e não sair tão bem quanto se espera.

Também conversei com o professor Luiz Lopes (Luiz Tigrão), que começou um trabalho com terapia somática focado em atletas e artistas marciais. Ele me disse, dentre outras coisas, para investigar a raiz deste sentimento, pois se ele se expressa no tatame, também deve se expressar fora dele. Há umas semanas eu comecei a fazer psicoterapia — que era uma meta para este ano —, então, será o meu trabalho pelos próximos meses ou anos.

Quero compreender a origem desses pensamentos, mas com o intuito de ressignificá-los, não de erradicá-los ou destruí-los. O budismo tem me ensinado a não transformar minha mente num campo de batalha e que a meditação nos ajuda a olhar para estes sentimentos sem se identificar com eles, sem torná-los parte de quem eu sou. Da mesma forma como vêm, eles vão. 

No fim, aquela época me fez lembrar que eu sou capaz de enfrentar o que vier. Percebo que a minha batalha no Muay Thai é mais contra mim do que contra o meu oponente. Ainda que o caminho seja mais longo e o processo seja demorado, eu não me permito desistir. Às vezes, precisamos de um bilhete antigo, uma memória ou uma música que nos lembre: “mundo, eu venci você”.

Sawadee krap!

Karatê Kid 4: sobre falcões com a asa quebrada e a importância de um bom professor

4–6 minutos

Há uns meses, assisti ao filme Karatê Kid 4 (de 1994, disponível na Netflix). Minhas expectativas estavam, sinceramente, lá embaixo, pois continuações não costumam ser boas.

No entanto, uma cena do filme me marcou bastante: foi quando a Julie (interpretada pela maravilhosa Hilary Swank, de “Menina de Ouro” e “De Repente 30” solta na natureza um falcão que ela cuidava e que não conseguia voar por causa da asa quebrada. O senhor Miyagi (Pat Morita) diz que “foi sua fé na ave que a fez voar”. Aquela era uma clara metáfora da própria personagem e do papel do seu professor no seu processo de cura e transformação pessoal.

A menina estava quebrada pela morte dos pais. O Sr. Miyagi, como um verdadeiro mestre, emprestou sua fé nela, fazendo-a acreditar em si mesma e encontrar um propósito para a vida. Ele acreditou no potencial dela, e isso consertou suas asas e a fez voar outra vez.

A asa quebrada que cada um carrega

Confesso que comecei no Muay Thai sem saber bem onde estava pisando. Nunca havia assistido sequer a uma luta e não imaginava que esse esporte exigisse tanta flexibilidade (no clinch, nos chutes altos). Além disso, antes de praticar Muay Thai, eu nunca havia levado um soco, nem de brincadeira. Tudo era novo, e tudo o que é novidade dá um frio na barriga.

Honestamente, minha “asa quebrada” é a sensação de que isso não é para mim. Escrevo isso inúmeras vezes na esperança de lê-lo daqui a muitos anos e ver a grande bobagem que estou dizendo. Mas é como me sinto. Como se eu não servisse para a coisa, sabe? Talvez por não ser naturalmente agressivo ou incrivelmente habilidoso. Tenho feito de tudo, dentro das minhas possibilidades, para superar meus obstáculos internos e externos, mas nem sempre saio vencedor dessa luta interna.

O papel do professor

Aí entra a importância do papel do professor no processo e na vida do aluno. Muitos alunos chegam aos CTs quebrados, e o Muay Thai ou as artes marciais têm um potencial enorme de retraumatizar ou de ajudar no processo de cura, dependendo do professor, do aluno e da cultura do dojô. Um professor doente tende a adoecer seus alunos, perpetuando a cultura do medo e da violência. Um bom professor, por sua vez, fará com que seu aluno sinta segurança e confiança para enfrentar seus fantasmas e evoluir como praticante e como indivíduo.

Nesse ponto, já ciente da ressaca que terei depois que postar este texto, não poderia deixar de agradecer abertamente ao professor John Costa por tudo o que tem me ensinado nestes últimos meses. Se estiver lendo isso, saiba que falo bem pouco nas aulas, mas te acho f***.

Ele tem meu respeito antes mesmo de ser meu professor. Quando eu frequentava o mesmo CT que ele, certa vez nosso professor nos mandou correr na rua até um determinado ponto. Todos foram, e eu também fui, é claro, mas cheguei por último, morto de cansado. Os caras voltaram, mas ele me esperou retomar o fôlego para voltarmos e não só me esperou como também correu no meu ritmo — porque eu sabia que ele tinha fôlego para correr mais rápido do que aquilo.

Mas, para além disso — a ressaca virá forte —, ele tem me ensinado a ter calma, a respirar, a entender que nem tudo é sobre força, a ter postura, a pensar, a persistir. Ficou claro que sou fã dele!

O mínimo que um bom professor é capaz de fazer na vida de um aluno é ajudá-lo a acreditar em si mesmo. Confesso que não estou acostumado a ter pessoas acreditando e apostando em mim, me motivando. Sempre me vi como alguém “automotivado” — , mas não por escolha. Quando estudava para o concurso, costumava escrever na última página do meu fichário palavras de afirmação e incentivo. Faço o mesmo com o meu caderno de estudos do Muay Thai. A última folha está repleta de “você consegue”.

Tento fazer isso com os meus alunos de ciências também, dar todo o incentivo e apoio de que precisam, na matéria, na vida e nos esportes que praticam. Cada vitória deles é uma vitória minha também. Espero um dia poder ser uma inspiração para meus alunos de Muay Thai.

Quando a fé do outro vira autoconfiança

Hoje, ouvi que minha joelhada melhorou bastante. Não estou me achando com isso, mas é claro que isso me deixa feliz, pois tenho me esforçado para melhorá-la. Não dá para dizer que é o resultado de uma só pessoa, mas do trabalho incrível que todos os meus professores e até alguns colegas mais experientes têm feito até agora para me ajudar a evoluir.

Evolução é um processo que requer paciência. Uma vez que nada é permanente — lembra lá do Budismo —, sentir-se bom também não é. Sempre temos algo a melhorar. A “asa quebrada” às vezes volta a doer, mas a não desistência é uma habilidade a ser aprendida também.

Se chegou até aqui, comenta aí no final do post se alguma vez você já se sentiu incapaz, mas conseguiu ir longe por causa da fé do seu professor?

Para encerrar, talvez sejamos como falcões com a asa quebrada — ou um robô quebrado, como escrevi certa vez —, mas, quando encontramos as pessoas certas e damos a sorte de ter bons professores, que acreditam em nós, voar não só passa a ser possível, como também essencial à vida.

Que você tenha essa sorte.

Sawadee krap!

“Wai Kru Ram Muay” – uma cultura de respeito e gratidão

4–7 minutos

Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando comecei a praticar Muay Thai foi a cultura extremamente rica por trás desse esporte, com heranças budistas (como comentei no texto sobre o Phuang Malai) e também raízes hinduístas, que comentarei neste texto.

Um desses elementos culturais é o Wai Kru Ram Muay, uma dança ritualística realizada pelo lutador antes de iniciar a luta. Embora o Muay Thai seja um esporte moderno, com menos de cem anos de existência, e tenha se popularizado e se modernizado em todo o mundo, ele ainda conserva suas raízes históricas.

Sabemos bem que os países ocidentais não são tão afetuosos com “raízes históricas” ou “ancestralidade”, o que diverge bastante dos países orientais. O Wai Kru Ram Muay, por exemplo, tem forte ligação histórica com a cultura thai desde o Reino do Sião (como a Tailândia era chamada séculos atrás).

Um dos registros históricos mais antigos dele vem do ano de 1774, alguns anos após a invasão e destruição de Ayutthaya — capital do Reino do Sião na época — pelas tropas birmanesas (atual Mianmar). Na data, o rei da Birmânia promoveu um evento de luta, no qual o lutador Nai Khanom Tom ficou famoso por ter derrotado dez lutadores. A história conta que, antes da primeira luta, o herói siamês executou o Wai Kru e, em seguida, venceu seu oponente rapidamente. No entanto, o juiz invalidou sua vitória, alegando que o oponente havia sido distraído pelo ritual e pela música, acreditando que Nai Khanom Tom havia usado magia negra.

Mas como é feito esse ritual? Em resumo, antes de iniciar a luta, os lutadores percorrem todo o ringue, fazendo uma oração de um canto ao outro. Esse “selamento” do ringue tem o intuito de abençoar o campo de batalha e afastar influências malignas.

Imagem extraída de: https://cienciadoringue.com.br/qual-a-relacao-entre-wai-kru-e-ram-muay

Em seguida, o lutador se curva três vezes em respeito ao seu professor, à sua academia de treinamento e aos antigos lutadores e professores de Muay Thai. O Wai, feito com as mãos em posição de prece junto ao peito, é uma forma de demonstrar respeito e gratidão pelo seu professor (Kru). Após isso, o lutador faz a dança, que tem o intuito de ajudar na concentração e alongamento do lutador.

O Ram Muay possui inúmeras referências ao Ramayana, um épico hinduísta que conta a história de um guerreiro em uma viagem para resgatar sua amada. A religião hindu foi introduzida no antigo império Khmer (atual Camboja), que fez parte da origem dos primeiros reinos thai.

Desde épocas remotas, na Tailândia, esse respeito é cultivado. Antigos lutadores, por exemplo, costumavam levar ofertas aos monges, pedindo-lhes que abençoassem a batalha. Em muitos campos de treino na Tailândia, os alunos precisam ser aceitos por seus professores antes de começarem a treinar.

Aqui no Ocidente, facilmente podemos cair no erro de encarar nossos professores como meros “prestadores de serviço”, sobretudo nas academias de rede. Uma vez paga a mensalidade, o professor tem que nos servir. Isso destoa totalmente da cultura thai. Mesmo numa turma comercial, com aulas três vezes por semana e mensalidades, vivi e presenciei momentos com os meus professores que ficarão marcados. Este texto, inclusive, é minha forma de dizer “muito obrigado por tudo!”.

Me lembro de certa vez em que comentei com meu antigo professor sobre a minha dificuldade em chutar alto e as dores no quadril que eu sentia. Ele foi extremamente generoso ao dizer que também já foi travado nos chutes e que ajudaria no que pudesse. Ele me perguntou: “você confia em mim?”. Eu, que já confiava, passei a confiar ainda mais. Embora eu não treine mais neste CT, sei que ele fez tudo o que pôde e, por isso, sou profundamente grato. Apesar de toda a correria e dos inúmeros alunos, havia uma vontade sincera em me ajudar.

Eu li que na Tailândia o Wai Kru Ram Muay é ensinado também aos praticantes que não competem. Isso mostra que a gratidão, apesar de ser um sentimento individual, precisa ser ensinada ao coletivo e extrapolar os limites do ringue e do tatame.

Uma das formas de demonstrar respeito pelos nossos professores é mantendo a mensalidade em dia. Muitos professores vivem apenas do dinheiro das mensalidades — que não é nenhuma fortuna, vale ressaltar — e que dependem disso para manter as contas de casa e do CT em dia. Pagar a mensalidade sem atrasos e deixar o professor despreocupado é o mínimo que podemos fazer.

Além disso, zelar pelo bom estado dos materiais do CT é outra forma mínima de demonstrar respeito e gratidão. Os equipamentos são o fruto do esforço do mestre e devem ser bem cuidados e organizados após o uso.

Mais do que isso, o respeito também pode ser demonstrado por meio da pontualidade nos treinos, da atenção durante a aula e do uso consciente do espaço — isso inclui limpar os pés antes de pisar no tatame, jogar os copos descartáveis no lixo e manter os sanitários minimamente limpos. E, para os alunos mais antigos, ser receptivo e paciente com os novatos facilita a permanência destes na academia a longo prazo.

A propósito, não devemos esquecer que o respeito pelo seu mestre se estende aos seus colegas, sobretudo aos alunos mais graduados. Quando um aluno mais antigo substitui o professor, aprendi que ele deve ser respeitado e ouvido com a mesma reverência. Afinal de contas, todos os alunos graduados chegaram lá por mérito e estão nessa caminhada há muito mais tempo que nós, iniciantes.

Sempre que identificar uma necessidade do seu mestre, ofereça-se para ajudar. Além disso, dar o melhor de si nos treinos; estudar as técnicas, a história e as regras; e esforçar-se para evoluir é uma maneira de valorizar o trabalho, o tempo e o conhecimento do seu professor.

Enfim, a riqueza do Muay Thai vai além do simbolismo e das raízes históricas. Ela está em ver que a cultura thai de respeito, honra e gratidão não se limita aos rituais. Ao fim da luta, ganhando ou perdendo, o professor continua ao lado do seu discípulo, apoiando e comemorando o seu avanço. Ele estará lá seja qual for o resultado. Essa tem sido uma das lições mais legais que o Muay Thai tem me ensinado.

Sawadee krap!

A terceira graduação: abrindo meu caderno de gratidão

5–7 minutos

Começava a chover quando entrei no carro naquela tarde. Fechei a porta e, por um brevíssimo momento, foi como se o mundo tivesse desligado. Já se passavam três dias desde a graduação para o prajied verde, mas a minha cabeça ainda fervilhava.

Notei que todos os elementos daquele instante contrastavam com a graduação. Se no carro caía uma chuva tímida, no dia do exame o tempo estava totalmente fechado e fazia muito frio. Se no carro tudo estava calmo e em silêncio, na graduação o que se ouvia eram os chutes nos sacos de pancadas, os socos nos aparadores e as conversas ansiosas na área externa do tatame.

Depois de um tempo pensando nisso, voltei minha mente para o carro, para a folhinha do pé de flamboyant que caiu do meu cabelo depois que me sentei e para o meu caderninho no banco ao lado. Peguei-o no colo e comecei a escrever as razões pelas quais eu era grato naquele momento.

Eu acredito mesmo que a gratidão é um sentimento poderoso, que nos ancora no tempo presente e nos ajuda a enxergar nossos progressos e abraçar nossos processos.

Acredito também que devemos valorizar nossas pequenas vitórias, ainda que sozinhos dentro do carro, quando ninguém mais está vendo. Afinal, nem todo progresso é assistido ou aplaudido por quem passa pela nossa vida; portanto, não devemos perder a oportunidade de, nós mesmos, nos orgulharmos do lugar onde chegamos. É menos sobre dar certo ou errado e mais sobre se permitir tentar.

Vou compartilhar, neste texto, alguns trechos do que escrevi naquele dia no meu caderno de gratidão, esperando que, de alguma forma, você possa se identificar ou, na mais distante das hipóteses, se inspirar.

Boa leitura!

“Eu sou grato por continuar no muay thai, apesar dos desafios.”

Sem dúvida, meu maior desafio nos últimos meses foi uma dor que eu sentia no quadril, uma dor que se estendia da pélvis até o joelho. Havia dias em que bastava eu andar por mais de cinco minutos para a dor vir e a perna travar.

Fui ao ortopedista e o prognóstico era de tendinite. Fiz todos os exames e nada foi encontrado. Nenhuma tendinite, nenhuma luxação. Nada. Vou escrever um post só sobre isso depois, mas o que posso adiantar é que a dor tinha origem emocional. Durante uma sessão de yoga, lembrei de um trauma que sofri no início da adolescência e que ficou guardado no meu corpo.

Depois que me lembrei desse trauma, passei uma semana meio esquisito, sem saber o que fazer com a informação. Foi quando me sentei com esse sentimento durante uma meditação e fiz uma sessão de terapia somática, e a dor se foi. Que bom que se foi.

Na semana da graduação, eu estava um pouco apreensivo, com um pouco de medo que a dor voltasse. Todo o meu foco era em “blindar” minha mente para qualquer gatilho. Ao final do exame, eu estava bem com tudo o que aconteceu.

Hoje, sou grato porque, apesar desse desafio, eu continuei — é claro, sem forçar demais a perna esquerda para não piorar o problema. Mas aprendi tanta coisa com isso que realmente não dá para resumir aqui. Digo apenas que o nosso corpo sempre dá um jeito de nos apontar a cura se estivermos atentos aos sinais que ele dá. Nosso corpo é sábio.

“Eu sou grato por poder enxergar os pontos onde posso melhorar e encontrar espaço para crescer”.

Foi ótimo fazer mais um exame. Tudo ocorreu muito bem. Na hora da corrida, não perdi o gás. Na demonstração de técnica, eu estava bastante seguro. Mas, com certeza, eu queria ter me saído melhor no sparring.

Não é como se eu estivesse nervoso nem nada do tipo, pois, por incrível que pareça, das graduações que fiz até o momento, essa foi a que eu estava mais tranquilo — “tranquilo” talvez não seja a palavra, mas com o nervosismo sob controle. De qualquer forma, a coisa não fluiu tão bem no sparring. Dei muitos vacilos e também não aproveitei os vacilos que o meu colega deu. Baixei a guarda em vários momentos e não usei boa parte das técnicas que conheço.

Apesar das coisas não terem saído como eu esperava — e uma parte minha fica inevitavelmente frustrada, principalmente por não ter dado o melhor que eu podia —, eu sei que as frustrações e a falta de controle também fazem parte do processo. Isso me faz ser grato pelo sparring que fiz; pelo colega com quem treinei várias vezes, mas nunca havia caído na mão com ele; mas principalmente por poder ver o quanto eu ainda preciso evoluir. Toda catarse nos impulsiona a sair do lugar e a mudar o jeito como fazemos as coisas. Estou totalmente comprometido para que isso aconteça.

“Eu sou grato porque o meu corpo está conseguindo absorver melhor os golpes e se recuperar mais rápido”.

Como falei antes, o sparring não foi fácil. Mas apesar dos golpes que tomei, no dia seguinte eu estava bem, inteiro e pronto para treinar. Isso me chamou a atenção porque, meses atrás, quando fazia sparring ou escola de combate, muitas vezes saía dolorido.

Logo, sou grato porque o meu corpo, aos poucos, está se acostumando a receber e absorver os golpes. É claro que o meu parceiro não usou 100% da força e eu também não, mas percebi que o meu corpo está se recuperando mais rápido. Fico feliz por isso.

“Eu Posso”

Eu escrevi outros motivos de gratidão no caderno, mas este texto ficaria enorme se eu pontuasse cada um. A lição que isso tudo deixa para mim — e quem sabe para você também — é que podemos valorizar nossos pequenos avanços sem precisar de validação externa. Aprender a torcer por si mesmo, a comemorar as próprias vitórias, a se apoiar e a se levantar quando cair… tudo isso pode ser aprendido. Eu estou tentando.

Depois de escrever a lista de gratidão, escrevi uma lista de manifestação e afirmações positivas. Essas afirmações nos ajudam a reprogramar o nosso cérebro, muitas vezes condicionado a se apegar ao que aparentemente não deu certo. Nem tudo saiu como eu queria, é verdade, mas tudo tem dois lados. Mesmo as coisas que saem do controle podem ser uma ponte para uma transformação profunda. É nisso que me apego hoje.

Eu posso (03/09/25)

Eu posso apreciar e validar o meu progresso.

Eu posso me apoiar nas minhas fraquezas e inseguranças.

Eu posso evoluir e melhorar em todos os aspectos.

Eu posso me sentir calmo, confiante e destemido em qualquer situação.

Eu posso me dedicar e fazer melhor.

Eu posso ver claramente o meu potencial e utilizá-lo com inteligência.

Sawadee krap!

O Preço da Luta: A História de Maguila e a Encefalopatia Traumática Crônica

7–11 minutos

Maguila foi um dos maiores boxeadores do Brasil e do mundo, tendo conquistado títulos nacionais e internacionais importantes. Infelizmente não acompanhei a sua carreira, pois nasci em 1994. Mesmo assim, ao longo dos anos 2000, me recordo bem dele e do Popó na televisão.

José Adilson Rodrigues dos Santos (1958 – 2024), conhecido como Maguila, nasceu em Aracaju-SE. Mudou-se para São Paulo ainda adolescente, onde trabalhou como servente de pedreiro. Mais tarde, entrou para uma academia de boxe e começou a participar de competições, destacando-se na categoria peso-pesado ao longo das décadas de 80 e 90. Aposentou-se em 2000, com um cartel recheado de vitórias e títulos importantes.

No final do ano passado, veio a falecer em decorrência da Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), uma doença comum em pessoas que praticam esportes de combate e artes marciais. Após a morte de Maguila, a pedido do meu antigo professor de Muay Thai, comecei a pesquisar um pouco sobre esta doença, movido pela curiosidade e até um pouco de medo. Li dois artigos científicos e, mais recentemente, um capítulo de livro de Neurologia – é nisso que dá soltar um nerd dentro do muay thai. Todos os textos que usei como referência para escrever este artigo serão citados ao final. Boa leitura!

O que é a ETC, afinal?

Inicialmente descrita na literatura médica como “punch drunk syndrome” – não consegui uma tradução boa para este termo, mas a tradução literal seria algo como “síndrome do soco bêbado” ou, talvez, “síndrome do boxeador bêbado” –. O termo foi criado pelo médico legista Harrison Martland, após um estudo realizado com 23 pugilistas.

Mais tarde, em 1937, Millspaugh propôs um termo menos pejorativo para a doença: dementia pugilistica. Em 1957, a condição recebeu o nome de “encefalopatia crônica progressiva do boxeador”, termo proposto por Critchley. Atualmente, chama-se encefalopatia traumática crônica, pois, após estudos realizados da década de 2000 para cá, observou-se que a ETC também pode acometer atletas de outras modalidades de lutas, militares veteranos e atletas de outros esportes, como o futebol americano e o hóquei.

“Ok, mas essa síndrome é causada exatamente por quê?”, você deve estar se perguntando. A ETC é causada por impactos cranianos repetidos, resultando em danos cerebrais com consequências a longo prazo. No esporte que pratico, o muay thai, é comum que algumas lutas acabem em nocaute – que é quando o lutador é derrubado e perde temporariamente a consciência. No entanto, mesmo sem um nocaute, os impactos causados pelas pancadas na região da cabeça (socos, chutes, cotovelos) são bastante perigosos para os praticantes.

Quais os sintomas e como é o diagnóstico?

Os primeiros trabalhos publicados focavam bastante nos prejuízos motores causados pela ETC, mas por volta da década de 1960, os trabalhos passaram a dar ênfase também aos efeitos psiquiátricos apresentados pelos ex-pugilistas. Hoje, sabe-se que os sintomas são de três tipos: motor, cognitivo e psiquiátrico.

  • Os sintomas motores incluem: lentidão na fala, tremores, parkinsonismo, rigidez em alguns membros, dificuldade de dominar a mão, problemas na coordenação fina das mãos e falta de equilíbrio.
  • Entre os sintomas cognitivos estão: falta de atenção para tarefas complexas, diminuição na velocidade mental, amnésia, lentidão do pensamento e da fala.
  • Os sintomas psiquiátricos podem ser: mudanças rápidas e intensas de humor, irritabilidade, desconfiança, agressividade, paranoias, ciúmes, ataques de violência, comportamento infantil, psicose, desinibição, etc.

É provável que exista uma subnotificação dos casos, pois muitas vezes depende do próprio paciente buscar ajuda médica. Além disso, como aconteceu no caso do lutador Maguila, os sintomas da doença são frequentemente confundidos com a Doença de Parkinson ou Alzheimer.

O diagnóstico exato ainda é feito após a morte do paciente, isso quando permitido pela família, como aconteceu com Maguila, que teve seu cérebro doado para estudos. Apesar disso, já existem estudos que buscam diagnosticar a doença com o paciente ainda vivo. Vamos torcer para que esses estudos avancem!

Eu li que não existe cura para a ETC e que o tratamento é feito com remédios que atuam nos sintomas motores e psiquiátricos, como os usados para tratar a Doença de Parkinson, antidepressivos, estabilizantes de humor e antipsicóticos. Além disso, a psicoterapia, como a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), também pode ajudar o indivíduo a passar por este problema.

Na literatura médica, existe uma escala de lesão, que varia de 0 a 3, que indica a presença e a intensidade dos sintomas motores, cognitivos e psiquiátricos – portanto, a intensidade e presença de determinados sintomas variam de paciente para paciente. Histórico familiar de doenças psiquiátricas ou cognitivas podem ser fatores de risco para o desenvolvimento da ETC. Além disso, estudos apontam que os atletas podem desenvolver esta condição poucos anos após encerrar suas carreiras; e mesmo após encerrar a carreira e parar de lutar, a doença não estaciona e nem retrocede. Seus sintomas são progressivos.

O que exatamente acontece com o cérebro com esses impactos?

Esta resposta não é tão simples de explicar – e entender também não foi simples. Mas compreendi, enquanto estudava, que os traumas repetitivos na cabeça acabam gerando uma deposição anormal de “proteínas tau hiperfosforiladas”. Elas se acumulam nas células nervosas e nos vasos sanguíneos, impedindo a comunicação entre os neurônios. Com o tempo, isso resulta na morte das células nervosas e diminuição do cérebro – atrofia cerebral, principalmente da área responsável pelo nosso comportamento, emoções e cognição. Eu li em algum dos trabalhos que essas proteínas se depositam e acumulam no cérebro alguns dias após o trauma.

Quando sofremos impactos repetidos no crânio, o nosso cérebro tenta reparar o tecido lesionado com uma resposta inflamatória. Porém, quando os traumas são repetitivos e frequentes, essa resposta inflamatória se torna crônica, agravando e acelerando o progresso da doença. Além desses, existem outros mecanismos já estudados e ainda em investigação que são responsáveis pelo desencadeamento da doença.

O que isso tem a ver com o muay thai?

Como eu citei antes, é comum nos esportes de combate (como o boxe, o muay thai, o kickboxing, o MMA, etc.) que as lutas acabem em nocaute ou que o adversário seja impedido de continuar por não ter mais condições de competir após inúmeras pancadas fortes na cabeça.

No manual de regras da Federação Internacional de Muay Thai Amador (IFMA), publicado em abril de 2023, quando um atleta sofre um nocaute ou quando o árbitro interrompe a disputa devido a recebimentos de golpes fortes na cabeça que o tornam indefeso ou incapaz de continuar, o atleta fica impossibilitado de voltar a lutar ou de participar de sparrings por um período de um mês. Caso aconteça novamente com este atleta num período de 90 dias, ele deve ficar afastado por 90 dias. Se em um período de um ano acontecer novamente, o atleta deverá ficar afastado por 12 meses após o terceiro episódio.

É importante entender que, segundo o manual, essa regra serve tanto para competições quanto para treinos. Caso aconteça um trauma muito grande durante um treino, a mesma regra deverá ser aplicada. Ou mesmo, se o atleta for derrubado várias vezes em lutas consecutivas ou sofrer muitas pancadas na região da cabeça, também deverá ficar afastado por um período de 4 semanas, caso o médico decida que isso é necessário. Além disso, o manual também fala que, para voltar às atividades, é necessário que o atleta apresente uma liberação de um médico neurologista, após a realização de exames como eletroencefalograma (ECG) e, se necessário, uma tomografia computadorizada com contraste. Lutadores do estilo muay matt, que costumam se expor bastante aos golpes, precisam tomar um cuidado especial quanto a isso.

Não houve atualização dessas regras no manual do IFMA publicado este ano, logo, acredito que as regras de 2023 seguem em vigor.

Como prevenir a ETC?

Se você chegou neste ponto do texto, é possível que já esteja com o celular na mão ligando para o mestre para cancelar a matrícula e desistir de tudo, mas não é bem assim. Os riscos existem, é claro, mas não precisamos desistir do esporte.

Na verdade, o pesquisador Mortmer analisou os estudos de três autores em 1985 e concluiu que, embora os lutadores amadores e profissionais (com frequência de lutas semelhantes) tenham basicamente o mesmo risco de desenvolver lesões neurológicas, mas com boa supervisão e mantendo uma frequência baixa de lutas, a incidência dos sintomas é relativamente baixa.

Além disso, os artigos ressaltam a importância de se usar equipamentos de proteção durante os treinos, como luvas mais acolchoadas, protetor bucal e até mesmo capacete, visando mais segurança para os praticantes de lutas.

Gostaria de incluir, ainda, a importância de se estar em uma academia de lutas onde a segurança dos alunos e atletas é levada em consideração. Sem o direcionamento adequado por parte do professor, alguns alunos podem acabar usando uma força desmedida e desnecessária nos treinos. O sparring não é um duelo de vida ou morte. E um bom lutador não é aquele que bate com força o tempo todo, mas o que sabe controlar seu fogo interno. Fica a dica aí!

Além disso, já ouvi relatos de treinadores que forçaram seus atletas a continuar uma luta com o discurso absurdo de “aqui a gente não desiste” ou “desistir é para os fracos” e, no fim, o atleta se machucou gravemente. Não estamos no Cobra Kai dos anos 80-90.

Por fim, enquanto eu pesquisava sobre o Maguila, vi um corte de uma entrevista do Popó para um podcast, onde ele disse que um dos fatores que fez o Maguila ficar no estado em que ficou, após anos de uma carreira brilhante no boxe, foram os treinos excessivamente pesados. É realmente triste ver que um atleta gigante não pôde aproveitar e desfrutar dos frutos da sua carreira na velhice porque sua saúde foi negligenciada. O que o esporte nos ensina é que a nossa força precisa ser devidamente dosada; e que o legado do Maguila e de outros grandes lutadores nos serve de lembrete para lutarmos de forma inteligente e segura.

Sawadee krap!

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Referências Bibliográficas:
ARAGÃO, Elia Frota et al. Encefalopatia Traumática Crônica: Revisão dos Mecanismos Neurodegenerativos e Implicações Clínicas nos Traumas Repetitivos. In: FREITAS, Guilherme Barroso Langoni de; SLEIMAN, Hanan Khaled (Org.). Neurologia: Diagnósticos, Tratamentos e Cirurgias. 6. ed. Irati: Pasteur, 2024. p. 202-210.
AREZA-FEGYVERES, Renata; CARAMELLI, Paulo; Nitrini, Ricado. Encefalopatia traumática crônica do boxe
ador (dementia pugilistica). Revisão de literatura. Rev. Psiq. Clín. 32 (1); 17-26, 2005
Castellani, Rudy J.; Perry, Geroge. Dementia Pugilistica Revisited. Review. Journal of Alzheimer’s Disease
60, 1209–1221, 2017.
Júnior, Quirino Cordeiro; Oliveira, Alexandra Martini de. Sintomas parkinsonianos, cerebelares, psicóticos
e demenciais em ex-pugilista: relato de caso. Arq. Neuro-Psiquiatr. 59 (2A) • Jun 2001.

Phuang malai e a impermanência da vida

5–7 minutos

O povo tailandês é cheio de rituais, superstições e amuletos da sorte. Nascido em berço budista, o Muay Thai herdou muitos desses símbolos sagrados que, mesmo na modernidade, persistem nos ringues pelo mundo afora.

Um dos amuletos importantes nesse esporte é o phuang malai, uma guirlanda de flores que é colocada no pescoço do lutador. O escritor, historiador do Muay Thai e editor-chefe do site Acervo Thai, Tiago Simão, disse em um vídeo que, na Tailândia, este amuleto é colocado no lutador após a luta. No Brasil, no entanto, é comum ver o lutador entrar no ringue usando o objeto antes da luta começar.

O phuang malai se popularizou na Tailândia durante o reinado do Rei Rama V. Nessa época, eles eram confeccionados à mão, com flores de jasmim, pelas mulheres que trabalhavam na corte. Ainda hoje, ele segue sendo um símbolo de prosperidade, sorte e espiritualidade. Porém, além de tudo isso, o phuang malai também simboliza a impermanência das coisas.

O budismo diz que a nossa natureza é transitória. Nada dura para sempre. Como disse Cássia Eller, “o ‘pra sempre’ sempre acaba”; ou mesmo nas palavras de Lulu Santos, “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Enquanto escrevo este texto, penso nas flores de jasmim caídas no chão do térreo do prédio onde moro. Elas desabrocharam, caíram, murcharão amanhã e logo deixarão de existir. Nada permanece. Nem a beleza das flores, nem as glórias das nossas vitórias, nem as nossas derrotas mais dolorosas

Tudo tem um fim

Há cerca de um ano ou mais, lembro-me do quanto fiquei impactado com a série “Carol e o Fim do Mundo” (Netflix). A animação conta a história de uma mulher de meia-idade que está encarando o fim do mundo junto com toda a raça humana. Acontece que um gigantesco meteoro está se aproximando da Terra e, em poucos meses, todos morrerão. Não há o que fazer.

A humanidade decide “aproveitar” a vida, viver com toda a intensidade, buscar novas experiências. A Carol, por sua vez, não sabe bem o que fazer com o tempo que resta. A maioria das experiências que as pessoas estão vivendo não fazem sentido para ela. Tudo o que ela quer é a normalidade da vida, mesmo em meio a todo o caos: ir ao dentista, bater o ponto no trabalho, sair com os amigos para um happy hour.

Essa série escancara a impermanência de uma forma tão dura que, em vários episódios, eu me vi emocionado e confuso. O fato de você acordar todos os dias, olhar pela sua janela e ver um corpo celeste enorme se aproximando e não poder fazer nada é desconcertante. Do mesmo modo, o phuang malai, que em um dia embeleza o pescoço de um grande lutador, mas no dia seguinte murcha, denuncia a realidade da qual teimamos em fugir: nada é permanente. Grandes lutadores um dia se aposentaram enquanto uma nova geração levanta seus cinturões com brilho nos olhos.  

O phuang malai e o caminho do meio

Quem, em sã consciência, colheria flores, confeccionaria um colar com elas para, no dia seguinte, as ver murchar? Da mesma forma, eu assistia à série e me perguntava: “Quem trabalharia sabendo que o mundo vai acabar em cerca de sete meses?” ou “Quem faria novos amigos diante de uma tragédia anunciada?”.

A grande verdade é que, embora não exista um megameteoro do lado de fora da nossa janela (acabei de conferir, não há), nós também passaremos em algum momento. Esta semana, refletindo sobre esse tema e sobre a série, percebi que finalmente entendi o porquê a personagem buscava a normalidade da vida em meio ao caos. Aquele era o caminho do meio, uma resposta à impermanência. Aceitar a realidade e buscar o equilíbrio.

O caminho do meio, no contexto do Muay Thai, é não se apegar a uma vitória em um sparring ou em uma luta, tampouco se apegar a uma derrota. O caminho do meio é se libertar da necessidade de aprovação e validação de seus mestres e colegas e apenas se comprometer com a sua jornada. O caminho do meio é também não classificar um treino como bom ou ruim, e apenas aceitar que tudo serve para a nossa evolução.

Quando você tira o foco do resultado — do dia em que chegar à graduação máxima, do dia em que vencer o mais valente dos lutadores do CT, do dia em que alcançar o chute mais alto que a sua mobilidade permitiu — você entende que o resultado não é tudo. Nossa motivação deve estar na constância e na disciplina, que vão servir como âncoras para o nosso barco quando uma tempestade de desânimo nos sobrevier.

Lutar contra a impermanência é a maior de todas as loucuras. Sempre há alguém melhor do que você. Um elogio ou uma crítica não definem a sua jornada. Sua vitória não o torna invencível, tampouco sua derrota o torna um fracassado. Apenas siga o fluxo.

A impermanência como ponte para a transformação

Quando conheci o conceito de impermanência, confesso que não fiquei muito animado. Não lido bem com mudanças ou incertezas. Não conseguia olhar para essa ideia e achar que isso era bom. Mas isso mudou esta semana. No vídeo “Thich Nhat Hanh – A Prática da Impermanência” do canal Corvo Seco, o autor diz a seguinte frase: 

“a impermanência é o que nos possibilita a transformação”.

Fiquei fascinado por isso, porque eu finalmente entendi que, uma vez que nada é permanente, podemos experimentar mudanças em nossas vidas. É graças à impermanência que podemos desfrutar da melhora nas técnicas de Muay Thai. Graças a ela, tenho fé de que não vou chutar baixo sempre. Graças a ela, graduação após graduação, eu sigo evoluindo.

Logo, quando o professor para várias vezes no treino e faz diversas observações sobre sua execução de técnicas, isso não significa que você seja ruim ou que não possa melhorar, mas que você é capaz de aprender algo e evoluir. A derrota não é o oposto da vitória, mas uma oportunidade de transformação.

Quanto ao phuang malai, ele não representa somente que as flores murcharão amanhã, mas que elas embelezam e perfumam o hoje, que é a única coisa que temos. Em outras palavras, aproveitar o treino de hoje, a aula de hoje, seus professores de hoje, é tudo o que importa. E mesmo que as flores murchem amanhã, sua essência e perfume ficarão marcados.

O lutador não é aquele que vence sempre, que tem bom desempenho todos os dias, que executa bem todas as técnicas, mas aquele que não se apega à impermanência e se permite ser transformado pelo processo. O phuang malai é, em última instância, onde a beleza e o caos, a força e a fragilidade se encontram e dão as mãos.

Sawadee krap!

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O castor

4–6 minutos

Todas as manhãs, ele se colocava ao pé da árvore.

Começava o dia bem cedo, quando o sol e os pássaros ainda estavam para acordar, e o orvalho deslizava na superfície das folhas. Durante aqueles dias, a árvore era seu templo, seu local de esforço e contemplação. Passara horas para escolhê-la — não porque fosse a melhor, mas por puro instinto ancestral.

Cravava os dentes na madeira dura e ia roendo-a até, aos poucos, criar espaço. De quando em quando, topava com um ou outro nó — a parte mais resistente do tronco —, o que o obrigava a diminuir o ritmo e alternar a força. Até que eles também cedessem.

Quando ouvia algum estalo na madeira, parava no mais completo silêncio para ouvi-la, para entendê-la. Apenas pelo som, era capaz de saber para que lado ela cairia.

Era habilidoso em ouvir.

Ele não resistia às pausas.

Parar era parte essencial do processo.

Por vezes, olhava concentrado para o topo da árvore, dezenas — até centenas — de vezes mais alto que ele, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, conseguiria derrubá-la.

E, apesar do som da mata, do gralhar das aves, podia ouvi-la — e ouvir-se — num contraponto harmônico, como se suas almas conversassem.

Quando os estalos aumentavam e o pinheiro já não mais resistia, ele abria espaço para que tombasse.

Após a queda, fazia-se um longo e profundo silêncio na floresta.

Estava feito.

[Autoral]

Sempre que eu escrevo um texto novo, apenas sento com um esboço mental e coloco no bloco de notas do celular as ideias que tive. Mas, curiosamente, este texto foi o mais trabalhoso até agora. Parei inúmeras vezes para relê-lo, reescrevi parágrafos inteiros, e esta é, provavelmente, a versão número dez — ou quase isso — que escrevo, sempre buscando entender onde eu queria chegar.

Eu poderia tranquilamente abandonar o texto e dizer: “acho que não tô na vibe agora”, ou “acho que não é pra ser”, ou mesmo “esse tema não funciona”. Mas decidi continuar pela constância, mesmo que, para isso, eu precisasse diminuir o ritmo.

Depois que assisti a um reels sobre castores e tive esse insight, não queria simplesmente largar a ideia.

Quando pensei em falar sobre o castor, que pausa para ouvir para que lado a árvore irá cair, acho que, inconscientemente, fiz igual a ele. Isso acabou me mostrando, na prática, que essa ideia se aplica a qualquer coisa na vida da gente — inclusive ao Muay Thai.

Tenho dito aqui que tudo é processo, e que ele, por vezes, exige que façamos algumas paradas para escutar o que está dentro de nós ou para ler o ambiente ao nosso redor. Não se vive de um fôlego só, de uma só empreitada. Nosso corpo fala quando é hora de parar.

Fala por meio de um cansaço que nunca passa, por meio de dores físicas, da respiração, dos batimentos cardíacos… fala até pelas nossas vísceras. Não podemos ignorá-lo quando ele pede descanso. Já vi pessoas passarem mal durante o treino por estarem doentes e ainda assim insistirem em treinar.

Aprendi com Jeff Eisenberg, no livro Buda Guerreiro, que não é o aluno mais fervoroso que vai chegar lá. Sentir-se culpado por ter faltado a um treino, ou treinar lesionado, é algo que precisa ser repensado.

Esta semana, por exemplo, decidi faltar a um treino porque estava bastante cansado e queria fazer uma sessão de yoga à noite, sozinho. Eu sabia que, se fosse para o treino, claramente não faria a yoga — que naquele dia era prioridade —, então tomei a decisão mais óbvia, embora eu adore treinar.

Como ouvir a si mesmo?

Silenciar tudo o que está em excesso

O excesso de expectativas, de autocobrança, de comparações… tudo isso nos tira do estado de presença no treino.

A intencionalidade nos movimentos — nos golpes, nas caminhadas, nas esquivas — e a atenção à respiração são caminhos para ouvir a si mesmo, ao professor e ao seu parceiro de treino.

O que sobra quando tudo silencia é o que precisa ser visto com mais clareza.

Atenção aos sinais do corpo

Nosso corpo é extremamente sensível ao nosso estado emocional.

Pode estar relaxado ou tenso, calmo ou inquieto. Ele reflete como estamos por dentro.

Por isso, é preciso observar nossos pontos de tensão e dor, e aprender a respeitar nosso tempo, dando espaço para o corpo se regular junto com a mente.

Nomear sensações e emoções

Nomear emoções é uma tarefa relativamente difícil, principalmente quando falamos de emoções negativas.

Nossa geração não foi ensinada a sentir, e sim a evitar.

Num ambiente de luta, por exemplo, é comum haver resistência em admitir medos, desconfortos.

Se no ringue não podemos acusar dor, carregamos essa ideia pra fora dele, jogando tudo o que não queremos sentir para debaixo do tapete — que é a nossa psique. E uma hora, isso volta.

Ouvir o seu tempo

Uma árvore não cai de uma hora para outra. Um texto assim não se escreve da noite pro dia. Nossa evolução no Muay Thai nem sempre será urgente. Leva tempo até o corpo aprender a base, o giro do quadril, a guarda, as defesas, a mentalidade de luta.

Ninguém nasceu pronto.

Escrevo isso quase como um mantra para mim mesmo. Fazer as pazes com o próprio ritmo é se dar o direito de errar até poder acertar.

Uma hora a árvore cai.

Sawadee krap!

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Segunda graduação – tenho minhas próprias montanhas para escalar

3–5 minutos

Hoje foi meu segundo exame de graduação. No final da aula, enquanto estávamos sentados no tatame, senti algo muito confortável e leve no corpo. Enquanto o professor chamava meus companheiros de treino à frente, retirei do meu braço o prajied amarelo para abrir espaço ao novo, o amarelo e branco. Quando o coloquei no colo e o encarei por um tempo, senti uma felicidade enorme. Lembrei que ontem disse a mim mesmo: “Não quero decidir como devo me sentir amanhã, mas quero me sentir feliz.” E aconteceu exatamente como desejei.

Sempre que participo de um exame, tento lembrar que é um momento único — o de hoje, por exemplo, nunca mais vai se repetir. Não sei se os mesmos colegas estarão nos próximos, nem quantos novos alunos estarão dividindo o tatame comigo. Isso me ajuda a manter a mente no presente, na experiência real, em vez de ser levado pela onda de nervosismo e ansiedade por desempenho. Seria um grande desperdício deixar o dia de hoje passar despercebido!

Por isso, quando olhei para aquele prajied no meu colo, senti um carinho enorme. Ele faz parte da minha história, e sou grato por ela em todos os seus pormenores.

Aquele prajied sempre será uma lembrança de como tudo começou, do meu primeiro dia no CT, do meu antigo professor, da minha primeira turma. Vai me lembrar das vezes que corremos na ladeira e de quando comemorei ao passar de cinco para sete voltas. Vai me lembrar do dia em que corri puxando um pneu às 14h30, sob um sol escaldante, com o almoço ainda sendo digerido — minha alma quase saiu do corpo. Esse prajied também vai me lembrar dos feriados e domingos em que acordei cedo para treinar sombra e pular corda sozinho no salão do prédio, enquanto meu vizinho — um garoto com TEA — me observava da janela – meu colega de treino sempre atento e silencioso.

Eu poderia listar os motivos que me fizeram começar no Muay Thai, mas, se você me perguntar hoje por que continuo, juro que não sei responder. Os motivos iniciais se tornaram secundários.

A verdade é que o Muay Thai conquistou tanto espaço na minha vida que já não consigo me imaginar sem ele.

No final do ano passado, assisti a uma animação japonesa que me marcou muito: Viagem ao Topo da Terra (Netflix). Na época, anotei no celular uma fala do personagem principal que encerra o filme:

“Não precisa haver um motivo. Para alguns, as montanhas não são um objetivo, mas um caminho. E o topo é só um degrau ao longo do caminho. Uma vez lá, tudo o que resta é continuar.”

O prajied amarelo no meu colo — e agora o amarelo e branco, que usarei a partir de amanhã — representa as inúmeras montanhas internas que superei com o Muay Thai, não apenas na graduação, mas no dia a dia dos treinos. O “topo”, simbolizado pelo prajied preto, é importante, mas definitivamente é só um degrau — não o fim. Cada vez mais isso se confirma pra mim.

Em certo momento do filme, o protagonista comete um grande erro. Esse erro o faz desaparecer por anos. Isso mostra que até pessoas brilhantes enfrentam altos e baixos. Comigo, mero mortal, não seria diferente.

Ainda assim, apesar dos erros e inseguranças, amanhã estarei no tatame tentando outra vez, porque, errando ou acertando, batendo ou apanhando, ali é o meu lugar. “Não há como impedir alguém de fazer o que quer, mesmo que pareça loucura.” (Trecho do filme citado).

Por fim – perdão pelo spoiler, mas o filme acaba sem esclarecer se o protagonista chegou ao topo da montanha. Seu corpo é encontrado no caminho. Não se sabe se indo ou voltando. O topo nunca foi o foco — o processo, sim. E da mesma forma, sinto que, a cada vez que coloco minhas luvas, a caneleira e escolho não desistir, estou escalando minhas próprias montanhas — um treino por vez. Sempre que eu olhar para esse prajied amarelo, vou lembrar que já fui muito mais longe do que imaginava poder ir. E, ao olhar adiante, verei o quanto ainda há para conquistar. 

Tenho certeza de que vou chegar lá.

Nas palavras do músico Renato Russo:

“Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo.”

Sawadee krap!

>> Este texto foi escrito em 04/05/25 e publicado no blog anterior.

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Eu posso fazer isso

4–6 minutos

Há uma semana, assisti a um vídeo (abaixo) no Instagram que me trouxe uma sensação muito confortável no corpo. Era um vídeo da @jaciradoce, no qual ela conta como venceu o medo de dirigir e como isso mudou a sua vida.

Esse vídeo me fez lembrar que, vez ou outra, venho aqui falar sobre os meus medos dentro do Muay Thai.

A ideia de criar um blog nasceu justamente da vontade de lidar com isso e olhar para esses medos com mais autocompaixão.

Me lembro que criei o blog na semana da minha segunda graduação e, a pouco menos de um mês da próxima, percebo que esse sentimento ainda aparece — mas eu mudei muito, e me orgulho disso.

Vamos para o começo: meus primeiros medos

O fato de ter começado no Muay Thai sem qualquer experiência prévia com lutas fez com que, a princípio, o medo não fosse um problema para mim. Mas, à medida que fui avançando nos treinos, estudando, pesquisando e assistindo a lutas, comecei a perceber melhor onde estava me metendo. Felizmente, gosto demais do Muay Thai para desistir tão fácil. Então, continuei.

Com o tempo, meus receios passaram a ser tanto físicos quanto mentais. Sentia medo de levar porrada, de quebrar algum osso, de sofrer uma lesão grave que me impedisse de treinar ou que me aposentasse precocemente da minha breve carreira como praticante. Também tinha receio de não ser visto como um bom lutador por não conseguir dar chutes altos, por conta dos meus problemas de mobilidade.

Além disso, havia também o medo de não performar bem, de ser o pior da equipe, de não dar conta do exame de graduação, de não ser bom o bastante nisso, de me sentir sempre deslocado, de não ser relevante para a equipe, de não ser levado a sério pelos meus professores.

No vídeo citado no início, me chamou atenção quando a Jacira diz que achava que carro não era para ela, ou que simplesmente não se via dirigindo. Não consigo explicar o quanto eu entendo o que ela quis dizer.

Há algumas semanas, li um recado que escrevi para mim mesmo na última folha do meu caderno de estudos sobre o Muay Thai:

“Você merece estar no lugar em que está.”

Eu realmente não faço ideia de quando ou por que escrevi aquilo, mas sei que era a minha forma de dizer que estou à altura do meu prajied — que conquistei com muito esforço — e que aquele lugar também me pertence.

Eu posso fazer isso

Certa vez, numa conversa informal com meu professor após o treino, ele me perguntou, como quem não quer nada — e provavelmente não querendo nada mesmo — se eu gostaria de, um dia, num futuro distante, quem sabe em outra galáxia… participar de uma competição de Muay Thai. Respondi prontamente que não. Falei que nunca foi meu objetivo, que eu não poderia participar dos treinos de competição aos sábados — pois sou adventista. Mas aquela resposta me incomodou.

Passei algumas horas pensativo, reprisando meus próprios argumentos, como quem tenta convencer a si mesmo de que aquilo seria uma loucura. O desconforto persistia. Então decidi sentar e olhar para ele em meditação. No fundo, eu sabia: era o medo tentando me proteger de lugares e experiências novas. Por fim, mandei uma mensagem para o meu professor dizendo: “Agora não… mas um dia eu queria tentar.” Isso foi uma virada de chave para mim. Como disse a Jacira no vídeo: “Algo em mim mudou, algo em mim floresceu.”

Antes de mais nada, que fique bem claro: eu não penso em me tornar um atleta profissional ou amador de Muay Thai. Meus planos não são esses.

Mas também não permito que o medo decida por mim onde devo estar ou o que devo fazer. Não aceito que o medo responda por mim. Se, porventura, eu nunca subir num ringue para lutar numa competição, quero ter a certeza de que não foi por medo.

Eu respeito a existência desse sentimento, que é totalmente válido, mas não posso deixá-lo me paralisar.

Eu posso fazer isso. Tenho repetido esse mantra desde então, todas as vezes que me pego tentando me acomodar ou repetir padrões mentais de autossabotagem.

Se eu tive força suficiente para vencer esse medo, tenho certeza de que posso derrubar um cara num ringue.

No vídeo, a Jacira diz: “Eu não preciso ser uma grande motorista, eu só preciso ser uma motorista.” Da mesma forma, eu não pretendo ser um grande lutador ou um grande professor de Muay Thai — mas é sobre saber que posso contar comigo quando eu precisar.

Com certeza não será agora, mas quando acontecer, estarei pronto. No dia em que eu subir num ringue, lhe dou a plena certeza de que estarei dando tudo de mim. Apenas isso será suficiente. Não há garantias de que vou vencer. Nunca há. Mas ouvi certa vez uma frase que dizia:

“A aventura vale a pena por si só.”

Isto me basta.

Sawadee krap!

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O que eu aprendi começando no muay thai aos 30

5–7 minutos

No início de 2024, decidi que a palavra do ano seria construção. Pensei nela quando, nos primeiros dias de janeiro, notei que um casal de bem-te-vis começava um ninho na minha janela. Decidi que também queria tentar algo novo, algo que me desafiasse.

Pensei na água e no frio na barriga que sinto ao entrar numa piscina. Como não sei nadar, achei que esse seria um bom ponto de partida. Mergulhei de cabeça na ideia (perdoem o trocadilho brega). Pesquisei vídeos no YouTube, adicionei touca, óculos e sunga no carrinho da Shopee, procurei lugares para fazer aulas… Mas, apesar da empolgação, não fui além disso. A rotina, aos poucos, tomou esse lugar.

Em minha defesa, o ninho dos bem-te-vis também não vingou. Bastou uma chuva muito forte, a primeira chuva de janeiro, que o ninho ficou em frangalhos. Os pássaros entenderam cedo que aquela janela não era um bom lugar para construir ninhos. Se reconstruíram em outro lugar. Eu também fiz o mesmo.

Na metade do ano, vi uma foto do meu irmão dando aulas de muay thai. Falei com ele e marcamos a primeira aula. Saí maravilhado. A sensação de socar alguma coisa era libertadora. Era exatamente o que eu precisava. Pouco mais de um mês depois, decidi me matricular num CT. Fazia sentido, na minha cabeça, ter aula com outras pessoas. É verdade que sou péssimo com interação social — parte por timidez, parte por não me achar interessante, parte por preguiça mesmo, parte por antipatia e parte pela dificuldade de me encaixar —, mas sabia que não dava pra passar o resto da vida treinando com a mesma pessoa. Foi assim que, aos trinta anos, comecei no muay thai.

Não vou dizer que me sinto atrasado, que comecei tarde e tudo o mais. Isso não pesa pra mim. Uma das coisas que aprendi logo ao entrar no CT foi que há pessoas começando o tempo todo — principalmente na turma da noite —; muitas, inclusive, bem mais velhas do que eu. Apesar disso, não vou mentir: a idade às vezes me pega. Eu sei que não sou mais um adolescente, mas, por alguns motivos, isso também é bom.

O que ganhei começando no muay thai aos 30

Começar no muay thai aos 30 me deixou satisfeito porque sinto que tenho mais maturidade emocional para lidar com as frustrações de aprender algo novo — e, acredite, as frustrações não são poucas. Essa maturidade — que, confesso, não é tão linear quanto gostaria — me serve de apoio quando fracasso nas técnicas, nos sparrings, nos chutes altos, nos treinos mais duros. Ela também me ajuda a ouvir meu corpo e reconhecer meus limites.

Além disso, consigo, em alguma medida, baixar um pouco o ego quando piso no tatame e não me deixar levar pela vaidade ou pela necessidade de aprovação. O respeito pelos colegas e pelo professor são coisas que eu não abro mão. Nada disso seria possível para o Danilo de 15 anos atrás. Ele certamente já teria desistido.

Começar no muay thai aos 30 é uma escolha persistente — não pensando no meu “eu” do futuro, mas no do presente. Eu realmente amo fazer isso. E faço isso por mim.

Como se tudo isso não bastasse, o muay thai ainda é um escape da rotina e do estresse do trabalho. É impressionante como me reenergizo no tatame. Mesmo nos treinos mais puxados, a sensação de voltar pra casa revigorado é única. Então, obrigado, Danilo de 31, por proporcionar isso a si mesmo.

Os desafios de começar aos 30

O que mais tem pesado nesse processo de quase um ano é o meu corpo — que não responde mais como o de alguém de 18. Às vezes estou em paz com isso. Outras vezes, me vejo brigando contra o inevitável. Posso citar o cansaço acumulado do dia, que faz com que, quando chego ao treino à noite — muitas vezes no último horário do CT —, eu já esteja no modo “fiz tudo o que pude e pude bem pouco”.

Mas, além disso, há os problemas físicos. Não sei se são da idade ou se já existiam e só agora incomodam. Falo do quadril, da pouca mobilidade, do encurtamento dos músculos… Os incômodos são vários. Por isso disse que nem sempre estou em paz com isso. Olho para colegas mais jovens — e até alguns mais velhos — e sinto uma pontinha de inveja, sabe? A comparação é quase sempre inevitável e quase sempre desleal. Queria chutar alto como eles. Queria não sentir dor na lateral do quadril ao levantar a perna. Queria ser mais flexível para agachar durante os alongamentos. Queria sentir menos dores no pós-treino. Mas meu corpo diz “não” — e o que me resta é dizer “ok, vou fazer o melhor que posso hoje” e me contentar com o que deu pra fazer.

O que tenho aprendido com o muay thai aos 30

O muay thai tem me ensinado a ter mais presença — dentro e fora do tatame. Hoje consigo perceber melhor meus sentimentos, meus padrões de comportamento, meus desconfortos. Mesmo sendo um esporte de combate, tem sido uma ferramenta incrível de autoconhecimento. Isso, confesso, foi uma grande surpresa.

Tenho aprendido também a ser mais disciplinado. Antes do muay thai, passei alguns meses numa academia de musculação, mas sem muitos resultados. Eu até era frequente, mas não conseguia manter a dieta, o que me deixava super frustrado. Hoje, quase 10 kg mais leve desde que comecei, percebo que a rotina, a preparação para a graduação e a vontade de me superar têm me ajudado a atingir meu peso ideal.

Agora, de todas as coisas que poderia citar, o maior benefício que o muay thai me trouxe até aqui é a autoconfiança. Vou fazer um post só sobre isso, mas já adianto: é imensa a satisfação de sentir que sou capaz de me defender — e de defender quem amo. Não falo só do ponto de vista físico, numa briga. É muito mais do que isso. É sobre não se sentir frágil. É sobre aprender a revidar. É sobre se impor. É sobre encontrar forças que eu nem sabia que existiam.

Enfim, sou muito grato por ter decidido começar essa jornada — e mais ainda por decidir, diariamente, continuá-la, custe o que custar.

Como disse Natália Sousa no podcast Para dar nome às coisas:

“Tentar não porque vai dar certo, mas porque vale a pena”

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