Já faz quase um ano desde que criei o blog e tanta coisa mudou dentro e fora de mim neste período.
Esses dias, revisitei o primeiro texto que escrevi, onde eu falava sobre os meus medos e recordava o filme Orion e o Escuro. Na época, eu havia feito a minha primeira graduação e estava mudando de equipe, começando uma pós-graduação… enfim, muitas mudanças. Era de se esperar aquele frio na barriga que ia comigo todas as noites em que eu cruzava a cidade para treinar no novo CT, onde eu ainda me sentia um forasteiro.
Foi justamente nesse contexto que me surgiu a ideia de criar o blog. Nunca tive o intuito de inspirar ou informar ninguém. Só queria escrever sobre as coisas que eu estava aprendendo e, principalmente, sobre os medos que eu sentia. Sempre que escrevo, imagino que há alguém do outro lado da tela que talvez se identifique com as minhas fragilidades. Escrever sobre fragilidade, num esporte tão violento, sempre me pareceu loucura, mas é o que faz sentido para mim. Eu só escrevo o que eu gostaria de ler ou dizer a mim mesmo quando bate um desânimo.
1. A metáfora do robô/arqueiro
Semana passada eu chegava em casa à noite, incrivelmente exausto depois de enfrentar oito aulas de ciências no ensino fundamental e ainda um treino puxado. Eu só queria minha cama.
Antes de fechar a porta e me recolher, olhei firmemente para o céu, que estava calmo, quase sem nuvens. Foi então que percebi que a constelação de Órion ficava justamente de frente para a minha casa. Passei um tempo observando-a e lembrando do texto que escrevi há um ano.
O título do post era “Às vezes arqueiro, às vezes robô quebrado”. A ideia para esse texto veio da animação Orion e o Escuro, que conta a história de um menino que literalmente tem medo de tudo. Em certo ponto do filme, o garoto, que recebe o mesmo nome da “constelação do arqueiro”, diz que não se sente um “arqueiro”, e sim um “robô querendo um abraço” — o que, na minha mente, ficou como “robô quebrado”, que era como eu me sentia.
2. Por que a metáfora fez sentido na época
O muay thai era um território desconhecido na época — e, em muitos sentidos, ainda é. Mesmo treinando há quase dois anos, sigo tentando encontrar o meu lugar dentro dele.
Como era tudo novo, eu sentia que oscilava o tempo todo entre me sentir forte e potente, tal qual um arqueiro, ou fraco e indefeso como um robô querendo um abraço. Eu passeava entre a forma como eu me via e a forma como eu gostaria de me ver.
Várias vezes eu fui treinar me sentindo “o cara”, mas bastava cometer algum erro básico — como baixar a guarda ou vacilar num bloqueio de chute — para eu me sentir fraco, como se aquilo não fosse para mim. Lembro-me de certa vez ter conversado sobre isso com o professor Luiz Lopes (Luiz Tigrão) e dizer que eu não me sentia bom o bastante, por mais que me esforçasse. Ele me perguntou: “Quando é que você vai se sentir suficiente?”
Passei um tempão pensando nisso e levei para a terapia.
3. As expectativas que eu tinha há um ano
Na época em que eu criei o blog, eu realmente acreditava que chegaria o dia em que eu me sentiria sempre um “arqueiro forte”, que não sentiria medo, que nunca mais fecharia os olhos quando viesse uma porrada.
Eu imaginava que esse era o normal dos outros caras do CT, dos meus professores e das pessoas que eu admirava no esporte. Tudo o que eu queria era me desvincular dessa imagem de “robô quebrado” que eu tinha de mim mesmo e que eu achava que passava para as pessoas. Eu queria ser invencível, mesmo que no fundo eu soubesse que ninguém era.
Para isso eu me esforçava mais, me dedicava mais e me cobrava demais. Eu pensava que ninguém me levaria a sério se eu fosse autoindulgente, mas a verdade é que era só uma forma errada de me enxergar. Quem disse que eu sou fraco? Quem disse que eu tenho que ser forte o tempo todo?
Estava ali o problema. Eu criei uma imagem de quem eu deveria ser e me apeguei a ela como uma tábua de salvação quando me sentia à deriva.
Felizmente isso mudou.
4. Um ano depois
Naquela noite em que eu cheguei em casa e olhei para a constelação de Órion, lembrei-me desse primeiro texto que havia escrito e tive um insight que me marcou bastante.
Eu percebi que não estava mais naquele lugar de oscilar entre aqueles dois polos: o de fragilidade e o de potência. Eu não me identifico mais como um poderoso arqueiro, mas também não me vejo como um robô quebrado. Eu saí dessa régua. Ela não mede mais o meu processo nem o meu progresso.
Não me identificar mais com esses arquétipos significa que, de algum modo, eu soltei essa visão estereotipada de quem eu deveria me tornar para ser levado a sério. Não quero passar a vida me medindo por um ideal inalcançável — nem esperar alcançá-lo para validar minhas habilidades.
Sobre me sentir um robô quebrado, isso também mudou. Tenho aprendido que não é autoindulgência ser paciente com o meu processo, com as minhas quedas, com os meus erros. A vida é dinâmica e tudo isso faz parte dela. A diferença é que eu não me defino mais pelas minhas fraquezas ou faltas. Elas são uma parte — não a totalidade — de quem eu sou.
É bom ressaltar que essas percepções não me vieram de uma hora para outra. Não rolou uma virada de chave nem nada. Naquela noite, olhando o céu estrelado, eu apenas percebi o que havia construído, amadurecido e elaborado ao longo do último ano. Foi um processo de amadurecimento. Como meu professor disse recentemente: “Muay thai é paciência.” E isso serve para tudo.
5. A conclusão que eu tirei disso
Uma das coisas que percebi é que criei o blog para falar dos meus medos, porque eu me sentia um robô quebrado na maior parte do tempo. Mas era justamente quando eu me sentia assim que eu encontrava coragem para continuar, apesar do sentimento de fracasso.
Não estou tentando romantizar esse sentimento de insuficiência ou torná-lo confortável. Não é sobre isso. Mas todas as vezes em que me senti impotente e indefeso, em que fui mal num sparring ou baixei a guarda e tomei um golpe de graça, eu me comprometi a fazer melhor na próxima vez.
Em nenhum momento eu me sentei e lamentei por não estar pronto ou saí jogando a culpa em quem quer que fosse. Todas as vezes eu me levantei e fui com medo mesmo. Todas as vezes eu disse ao meu professor: “Nesse ponto eu não fui bem. Você pode me ajudar?” Depois de muito esforço e trabalho conjunto, avançamos, mesmo que 1%.
No fim das contas, na maioria das vezes, eu não estou indo mais treinar com a responsabilidade de ser um arqueiro ou o peso de me sentir um robô fraco. Quem está lá no tatame, cansado, com um par de luvas velhas e uma música aleatória na cabeça, sou eu. Apenas eu. É isso que basta.
Sawadee krap!