Karatê Kid 4: sobre falcões com a asa quebrada e a importância de um bom professor

4–6 minutos

Há uns meses, assisti ao filme Karatê Kid 4 (de 1994, disponível na Netflix). Minhas expectativas estavam, sinceramente, lá embaixo, pois continuações não costumam ser boas.

No entanto, uma cena do filme me marcou bastante: foi quando a Julie (interpretada pela maravilhosa Hilary Swank, de “Menina de Ouro” e “De Repente 30” solta na natureza um falcão que ela cuidava e que não conseguia voar por causa da asa quebrada. O senhor Miyagi (Pat Morita) diz que “foi sua fé na ave que a fez voar”. Aquela era uma clara metáfora da própria personagem e do papel do seu professor no seu processo de cura e transformação pessoal.

A menina estava quebrada pela morte dos pais. O Sr. Miyagi, como um verdadeiro mestre, emprestou sua fé nela, fazendo-a acreditar em si mesma e encontrar um propósito para a vida. Ele acreditou no potencial dela, e isso consertou suas asas e a fez voar outra vez.

A asa quebrada que cada um carrega

Confesso que comecei no Muay Thai sem saber bem onde estava pisando. Nunca havia assistido sequer a uma luta e não imaginava que esse esporte exigisse tanta flexibilidade (no clinch, nos chutes altos). Além disso, antes de praticar Muay Thai, eu nunca havia levado um soco, nem de brincadeira. Tudo era novo, e tudo o que é novidade dá um frio na barriga.

Honestamente, minha “asa quebrada” é a sensação de que isso não é para mim. Escrevo isso inúmeras vezes na esperança de lê-lo daqui a muitos anos e ver a grande bobagem que estou dizendo. Mas é como me sinto. Como se eu não servisse para a coisa, sabe? Talvez por não ser naturalmente agressivo ou incrivelmente habilidoso. Tenho feito de tudo, dentro das minhas possibilidades, para superar meus obstáculos internos e externos, mas nem sempre saio vencedor dessa luta interna.

O papel do professor

Aí entra a importância do papel do professor no processo e na vida do aluno. Muitos alunos chegam aos CTs quebrados, e o Muay Thai ou as artes marciais têm um potencial enorme de retraumatizar ou de ajudar no processo de cura, dependendo do professor, do aluno e da cultura do dojô. Um professor doente tende a adoecer seus alunos, perpetuando a cultura do medo e da violência. Um bom professor, por sua vez, fará com que seu aluno sinta segurança e confiança para enfrentar seus fantasmas e evoluir como praticante e como indivíduo.

Nesse ponto, já ciente da ressaca que terei depois que postar este texto, não poderia deixar de agradecer abertamente ao professor John Costa por tudo o que tem me ensinado nestes últimos meses. Se estiver lendo isso, saiba que falo bem pouco nas aulas, mas te acho f***.

Ele tem meu respeito antes mesmo de ser meu professor. Quando eu frequentava o mesmo CT que ele, certa vez nosso professor nos mandou correr na rua até um determinado ponto. Todos foram, e eu também fui, é claro, mas cheguei por último, morto de cansado. Os caras voltaram, mas ele me esperou retomar o fôlego para voltarmos e não só me esperou como também correu no meu ritmo — porque eu sabia que ele tinha fôlego para correr mais rápido do que aquilo.

Mas, para além disso — a ressaca virá forte —, ele tem me ensinado a ter calma, a respirar, a entender que nem tudo é sobre força, a ter postura, a pensar, a persistir. Ficou claro que sou fã dele!

O mínimo que um bom professor é capaz de fazer na vida de um aluno é ajudá-lo a acreditar em si mesmo. Confesso que não estou acostumado a ter pessoas acreditando e apostando em mim, me motivando. Sempre me vi como alguém “automotivado” — , mas não por escolha. Quando estudava para o concurso, costumava escrever na última página do meu fichário palavras de afirmação e incentivo. Faço o mesmo com o meu caderno de estudos do Muay Thai. A última folha está repleta de “você consegue”.

Tento fazer isso com os meus alunos de ciências também, dar todo o incentivo e apoio de que precisam, na matéria, na vida e nos esportes que praticam. Cada vitória deles é uma vitória minha também. Espero um dia poder ser uma inspiração para meus alunos de Muay Thai.

Quando a fé do outro vira autoconfiança

Hoje, ouvi que minha joelhada melhorou bastante. Não estou me achando com isso, mas é claro que isso me deixa feliz, pois tenho me esforçado para melhorá-la. Não dá para dizer que é o resultado de uma só pessoa, mas do trabalho incrível que todos os meus professores e até alguns colegas mais experientes têm feito até agora para me ajudar a evoluir.

Evolução é um processo que requer paciência. Uma vez que nada é permanente — lembra lá do Budismo —, sentir-se bom também não é. Sempre temos algo a melhorar. A “asa quebrada” às vezes volta a doer, mas a não desistência é uma habilidade a ser aprendida também.

Se chegou até aqui, comenta aí no final do post se alguma vez você já se sentiu incapaz, mas conseguiu ir longe por causa da fé do seu professor?

Para encerrar, talvez sejamos como falcões com a asa quebrada — ou um robô quebrado, como escrevi certa vez —, mas, quando encontramos as pessoas certas e damos a sorte de ter bons professores, que acreditam em nós, voar não só passa a ser possível, como também essencial à vida.

Que você tenha essa sorte.

Sawadee krap!

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