Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando comecei a praticar Muay Thai foi a cultura extremamente rica por trás desse esporte, com heranças budistas (como comentei no texto sobre o Phuang Malai) e também raízes hinduístas, que comentarei neste texto.
Um desses elementos culturais é o Wai Kru Ram Muay, uma dança ritualística realizada pelo lutador antes de iniciar a luta. Embora o Muay Thai seja um esporte moderno, com menos de cem anos de existência, e tenha se popularizado e se modernizado em todo o mundo, ele ainda conserva suas raízes históricas.
Sabemos bem que os países ocidentais não são tão afetuosos com “raízes históricas” ou “ancestralidade”, o que diverge bastante dos países orientais. O Wai Kru Ram Muay, por exemplo, tem forte ligação histórica com a cultura thai desde o Reino do Sião (como a Tailândia era chamada séculos atrás).
Um dos registros históricos mais antigos dele vem do ano de 1774, alguns anos após a invasão e destruição de Ayutthaya — capital do Reino do Sião na época — pelas tropas birmanesas (atual Mianmar). Na data, o rei da Birmânia promoveu um evento de luta, no qual o lutador Nai Khanom Tom ficou famoso por ter derrotado dez lutadores. A história conta que, antes da primeira luta, o herói siamês executou o Wai Kru e, em seguida, venceu seu oponente rapidamente. No entanto, o juiz invalidou sua vitória, alegando que o oponente havia sido distraído pelo ritual e pela música, acreditando que Nai Khanom Tom havia usado magia negra.
Mas como é feito esse ritual? Em resumo, antes de iniciar a luta, os lutadores percorrem todo o ringue, fazendo uma oração de um canto ao outro. Esse “selamento” do ringue tem o intuito de abençoar o campo de batalha e afastar influências malignas.

Imagem extraída de: https://cienciadoringue.com.br/qual-a-relacao-entre-wai-kru-e-ram-muay
Em seguida, o lutador se curva três vezes em respeito ao seu professor, à sua academia de treinamento e aos antigos lutadores e professores de Muay Thai. O Wai, feito com as mãos em posição de prece junto ao peito, é uma forma de demonstrar respeito e gratidão pelo seu professor (Kru). Após isso, o lutador faz a dança, que tem o intuito de ajudar na concentração e alongamento do lutador.
O Ram Muay possui inúmeras referências ao Ramayana, um épico hinduísta que conta a história de um guerreiro em uma viagem para resgatar sua amada. A religião hindu foi introduzida no antigo império Khmer (atual Camboja), que fez parte da origem dos primeiros reinos thai.
Desde épocas remotas, na Tailândia, esse respeito é cultivado. Antigos lutadores, por exemplo, costumavam levar ofertas aos monges, pedindo-lhes que abençoassem a batalha. Em muitos campos de treino na Tailândia, os alunos precisam ser aceitos por seus professores antes de começarem a treinar.
Aqui no Ocidente, facilmente podemos cair no erro de encarar nossos professores como meros “prestadores de serviço”, sobretudo nas academias de rede. Uma vez paga a mensalidade, o professor tem que nos servir. Isso destoa totalmente da cultura thai. Mesmo numa turma comercial, com aulas três vezes por semana e mensalidades, vivi e presenciei momentos com os meus professores que ficarão marcados. Este texto, inclusive, é minha forma de dizer “muito obrigado por tudo!”.
Me lembro de certa vez em que comentei com meu antigo professor sobre a minha dificuldade em chutar alto e as dores no quadril que eu sentia. Ele foi extremamente generoso ao dizer que também já foi travado nos chutes e que ajudaria no que pudesse. Ele me perguntou: “você confia em mim?”. Eu, que já confiava, passei a confiar ainda mais. Embora eu não treine mais neste CT, sei que ele fez tudo o que pôde e, por isso, sou profundamente grato. Apesar de toda a correria e dos inúmeros alunos, havia uma vontade sincera em me ajudar.
Eu li que na Tailândia o Wai Kru Ram Muay é ensinado também aos praticantes que não competem. Isso mostra que a gratidão, apesar de ser um sentimento individual, precisa ser ensinada ao coletivo e extrapolar os limites do ringue e do tatame.
Uma das formas de demonstrar respeito pelos nossos professores é mantendo a mensalidade em dia. Muitos professores vivem apenas do dinheiro das mensalidades — que não é nenhuma fortuna, vale ressaltar — e que dependem disso para manter as contas de casa e do CT em dia. Pagar a mensalidade sem atrasos e deixar o professor despreocupado é o mínimo que podemos fazer.
Além disso, zelar pelo bom estado dos materiais do CT é outra forma mínima de demonstrar respeito e gratidão. Os equipamentos são o fruto do esforço do mestre e devem ser bem cuidados e organizados após o uso.
Mais do que isso, o respeito também pode ser demonstrado por meio da pontualidade nos treinos, da atenção durante a aula e do uso consciente do espaço — isso inclui limpar os pés antes de pisar no tatame, jogar os copos descartáveis no lixo e manter os sanitários minimamente limpos. E, para os alunos mais antigos, ser receptivo e paciente com os novatos facilita a permanência destes na academia a longo prazo.
A propósito, não devemos esquecer que o respeito pelo seu mestre se estende aos seus colegas, sobretudo aos alunos mais graduados. Quando um aluno mais antigo substitui o professor, aprendi que ele deve ser respeitado e ouvido com a mesma reverência. Afinal de contas, todos os alunos graduados chegaram lá por mérito e estão nessa caminhada há muito mais tempo que nós, iniciantes.
Sempre que identificar uma necessidade do seu mestre, ofereça-se para ajudar. Além disso, dar o melhor de si nos treinos; estudar as técnicas, a história e as regras; e esforçar-se para evoluir é uma maneira de valorizar o trabalho, o tempo e o conhecimento do seu professor.
Enfim, a riqueza do Muay Thai vai além do simbolismo e das raízes históricas. Ela está em ver que a cultura thai de respeito, honra e gratidão não se limita aos rituais. Ao fim da luta, ganhando ou perdendo, o professor continua ao lado do seu discípulo, apoiando e comemorando o seu avanço. Ele estará lá seja qual for o resultado. Essa tem sido uma das lições mais legais que o Muay Thai tem me ensinado.
Sawadee krap!