Começava a chover quando entrei no carro naquela tarde. Fechei a porta e, por um brevíssimo momento, foi como se o mundo tivesse desligado. Já se passavam três dias desde a graduação para o prajied verde, mas a minha cabeça ainda fervilhava.
Notei que todos os elementos daquele instante contrastavam com a graduação. Se no carro caía uma chuva tímida, no dia do exame o tempo estava totalmente fechado e fazia muito frio. Se no carro tudo estava calmo e em silêncio, na graduação o que se ouvia eram os chutes nos sacos de pancadas, os socos nos aparadores e as conversas ansiosas na área externa do tatame.
Depois de um tempo pensando nisso, voltei minha mente para o carro, para a folhinha do pé de flamboyant que caiu do meu cabelo depois que me sentei e para o meu caderninho no banco ao lado. Peguei-o no colo e comecei a escrever as razões pelas quais eu era grato naquele momento.
Eu acredito mesmo que a gratidão é um sentimento poderoso, que nos ancora no tempo presente e nos ajuda a enxergar nossos progressos e abraçar nossos processos.
Acredito também que devemos valorizar nossas pequenas vitórias, ainda que sozinhos dentro do carro, quando ninguém mais está vendo. Afinal, nem todo progresso é assistido ou aplaudido por quem passa pela nossa vida; portanto, não devemos perder a oportunidade de, nós mesmos, nos orgulharmos do lugar onde chegamos. É menos sobre dar certo ou errado e mais sobre se permitir tentar.
Vou compartilhar, neste texto, alguns trechos do que escrevi naquele dia no meu caderno de gratidão, esperando que, de alguma forma, você possa se identificar ou, na mais distante das hipóteses, se inspirar.
Boa leitura!
“Eu sou grato por continuar no muay thai, apesar dos desafios.”
Sem dúvida, meu maior desafio nos últimos meses foi uma dor que eu sentia no quadril, uma dor que se estendia da pélvis até o joelho. Havia dias em que bastava eu andar por mais de cinco minutos para a dor vir e a perna travar.
Fui ao ortopedista e o prognóstico era de tendinite. Fiz todos os exames e nada foi encontrado. Nenhuma tendinite, nenhuma luxação. Nada. Vou escrever um post só sobre isso depois, mas o que posso adiantar é que a dor tinha origem emocional. Durante uma sessão de yoga, lembrei de um trauma que sofri no início da adolescência e que ficou guardado no meu corpo.
Depois que me lembrei desse trauma, passei uma semana meio esquisito, sem saber o que fazer com a informação. Foi quando me sentei com esse sentimento durante uma meditação e fiz uma sessão de terapia somática, e a dor se foi. Que bom que se foi.
Na semana da graduação, eu estava um pouco apreensivo, com um pouco de medo que a dor voltasse. Todo o meu foco era em “blindar” minha mente para qualquer gatilho. Ao final do exame, eu estava bem com tudo o que aconteceu.
Hoje, sou grato porque, apesar desse desafio, eu continuei — é claro, sem forçar demais a perna esquerda para não piorar o problema. Mas aprendi tanta coisa com isso que realmente não dá para resumir aqui. Digo apenas que o nosso corpo sempre dá um jeito de nos apontar a cura se estivermos atentos aos sinais que ele dá. Nosso corpo é sábio.
“Eu sou grato por poder enxergar os pontos onde posso melhorar e encontrar espaço para crescer”.
Foi ótimo fazer mais um exame. Tudo ocorreu muito bem. Na hora da corrida, não perdi o gás. Na demonstração de técnica, eu estava bastante seguro. Mas, com certeza, eu queria ter me saído melhor no sparring.
Não é como se eu estivesse nervoso nem nada do tipo, pois, por incrível que pareça, das graduações que fiz até o momento, essa foi a que eu estava mais tranquilo — “tranquilo” talvez não seja a palavra, mas com o nervosismo sob controle. De qualquer forma, a coisa não fluiu tão bem no sparring. Dei muitos vacilos e também não aproveitei os vacilos que o meu colega deu. Baixei a guarda em vários momentos e não usei boa parte das técnicas que conheço.
Apesar das coisas não terem saído como eu esperava — e uma parte minha fica inevitavelmente frustrada, principalmente por não ter dado o melhor que eu podia —, eu sei que as frustrações e a falta de controle também fazem parte do processo. Isso me faz ser grato pelo sparring que fiz; pelo colega com quem treinei várias vezes, mas nunca havia caído na mão com ele; mas principalmente por poder ver o quanto eu ainda preciso evoluir. Toda catarse nos impulsiona a sair do lugar e a mudar o jeito como fazemos as coisas. Estou totalmente comprometido para que isso aconteça.
“Eu sou grato porque o meu corpo está conseguindo absorver melhor os golpes e se recuperar mais rápido”.
Como falei antes, o sparring não foi fácil. Mas apesar dos golpes que tomei, no dia seguinte eu estava bem, inteiro e pronto para treinar. Isso me chamou a atenção porque, meses atrás, quando fazia sparring ou escola de combate, muitas vezes saía dolorido.
Logo, sou grato porque o meu corpo, aos poucos, está se acostumando a receber e absorver os golpes. É claro que o meu parceiro não usou 100% da força e eu também não, mas percebi que o meu corpo está se recuperando mais rápido. Fico feliz por isso.
“Eu Posso”
Eu escrevi outros motivos de gratidão no caderno, mas este texto ficaria enorme se eu pontuasse cada um. A lição que isso tudo deixa para mim — e quem sabe para você também — é que podemos valorizar nossos pequenos avanços sem precisar de validação externa. Aprender a torcer por si mesmo, a comemorar as próprias vitórias, a se apoiar e a se levantar quando cair… tudo isso pode ser aprendido. Eu estou tentando.
Depois de escrever a lista de gratidão, escrevi uma lista de manifestação e afirmações positivas. Essas afirmações nos ajudam a reprogramar o nosso cérebro, muitas vezes condicionado a se apegar ao que aparentemente não deu certo. Nem tudo saiu como eu queria, é verdade, mas tudo tem dois lados. Mesmo as coisas que saem do controle podem ser uma ponte para uma transformação profunda. É nisso que me apego hoje.
Eu posso (03/09/25)
Eu posso apreciar e validar o meu progresso.
Eu posso me apoiar nas minhas fraquezas e inseguranças.
Eu posso evoluir e melhorar em todos os aspectos.
Eu posso me sentir calmo, confiante e destemido em qualquer situação.
Eu posso me dedicar e fazer melhor.
Eu posso ver claramente o meu potencial e utilizá-lo com inteligência.
Sawadee krap!