O Preço da Luta: A História de Maguila e a Encefalopatia Traumática Crônica

7–11 minutos

Maguila foi um dos maiores boxeadores do Brasil e do mundo, tendo conquistado títulos nacionais e internacionais importantes. Infelizmente não acompanhei a sua carreira, pois nasci em 1994. Mesmo assim, ao longo dos anos 2000, me recordo bem dele e do Popó na televisão.

José Adilson Rodrigues dos Santos (1958 – 2024), conhecido como Maguila, nasceu em Aracaju-SE. Mudou-se para São Paulo ainda adolescente, onde trabalhou como servente de pedreiro. Mais tarde, entrou para uma academia de boxe e começou a participar de competições, destacando-se na categoria peso-pesado ao longo das décadas de 80 e 90. Aposentou-se em 2000, com um cartel recheado de vitórias e títulos importantes.

No final do ano passado, veio a falecer em decorrência da Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), uma doença comum em pessoas que praticam esportes de combate e artes marciais. Após a morte de Maguila, a pedido do meu antigo professor de Muay Thai, comecei a pesquisar um pouco sobre esta doença, movido pela curiosidade e até um pouco de medo. Li dois artigos científicos e, mais recentemente, um capítulo de livro de Neurologia – é nisso que dá soltar um nerd dentro do muay thai. Todos os textos que usei como referência para escrever este artigo serão citados ao final. Boa leitura!

O que é a ETC, afinal?

Inicialmente descrita na literatura médica como “punch drunk syndrome” – não consegui uma tradução boa para este termo, mas a tradução literal seria algo como “síndrome do soco bêbado” ou, talvez, “síndrome do boxeador bêbado” –. O termo foi criado pelo médico legista Harrison Martland, após um estudo realizado com 23 pugilistas.

Mais tarde, em 1937, Millspaugh propôs um termo menos pejorativo para a doença: dementia pugilistica. Em 1957, a condição recebeu o nome de “encefalopatia crônica progressiva do boxeador”, termo proposto por Critchley. Atualmente, chama-se encefalopatia traumática crônica, pois, após estudos realizados da década de 2000 para cá, observou-se que a ETC também pode acometer atletas de outras modalidades de lutas, militares veteranos e atletas de outros esportes, como o futebol americano e o hóquei.

“Ok, mas essa síndrome é causada exatamente por quê?”, você deve estar se perguntando. A ETC é causada por impactos cranianos repetidos, resultando em danos cerebrais com consequências a longo prazo. No esporte que pratico, o muay thai, é comum que algumas lutas acabem em nocaute – que é quando o lutador é derrubado e perde temporariamente a consciência. No entanto, mesmo sem um nocaute, os impactos causados pelas pancadas na região da cabeça (socos, chutes, cotovelos) são bastante perigosos para os praticantes.

Quais os sintomas e como é o diagnóstico?

Os primeiros trabalhos publicados focavam bastante nos prejuízos motores causados pela ETC, mas por volta da década de 1960, os trabalhos passaram a dar ênfase também aos efeitos psiquiátricos apresentados pelos ex-pugilistas. Hoje, sabe-se que os sintomas são de três tipos: motor, cognitivo e psiquiátrico.

  • Os sintomas motores incluem: lentidão na fala, tremores, parkinsonismo, rigidez em alguns membros, dificuldade de dominar a mão, problemas na coordenação fina das mãos e falta de equilíbrio.
  • Entre os sintomas cognitivos estão: falta de atenção para tarefas complexas, diminuição na velocidade mental, amnésia, lentidão do pensamento e da fala.
  • Os sintomas psiquiátricos podem ser: mudanças rápidas e intensas de humor, irritabilidade, desconfiança, agressividade, paranoias, ciúmes, ataques de violência, comportamento infantil, psicose, desinibição, etc.

É provável que exista uma subnotificação dos casos, pois muitas vezes depende do próprio paciente buscar ajuda médica. Além disso, como aconteceu no caso do lutador Maguila, os sintomas da doença são frequentemente confundidos com a Doença de Parkinson ou Alzheimer.

O diagnóstico exato ainda é feito após a morte do paciente, isso quando permitido pela família, como aconteceu com Maguila, que teve seu cérebro doado para estudos. Apesar disso, já existem estudos que buscam diagnosticar a doença com o paciente ainda vivo. Vamos torcer para que esses estudos avancem!

Eu li que não existe cura para a ETC e que o tratamento é feito com remédios que atuam nos sintomas motores e psiquiátricos, como os usados para tratar a Doença de Parkinson, antidepressivos, estabilizantes de humor e antipsicóticos. Além disso, a psicoterapia, como a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), também pode ajudar o indivíduo a passar por este problema.

Na literatura médica, existe uma escala de lesão, que varia de 0 a 3, que indica a presença e a intensidade dos sintomas motores, cognitivos e psiquiátricos – portanto, a intensidade e presença de determinados sintomas variam de paciente para paciente. Histórico familiar de doenças psiquiátricas ou cognitivas podem ser fatores de risco para o desenvolvimento da ETC. Além disso, estudos apontam que os atletas podem desenvolver esta condição poucos anos após encerrar suas carreiras; e mesmo após encerrar a carreira e parar de lutar, a doença não estaciona e nem retrocede. Seus sintomas são progressivos.

O que exatamente acontece com o cérebro com esses impactos?

Esta resposta não é tão simples de explicar – e entender também não foi simples. Mas compreendi, enquanto estudava, que os traumas repetitivos na cabeça acabam gerando uma deposição anormal de “proteínas tau hiperfosforiladas”. Elas se acumulam nas células nervosas e nos vasos sanguíneos, impedindo a comunicação entre os neurônios. Com o tempo, isso resulta na morte das células nervosas e diminuição do cérebro – atrofia cerebral, principalmente da área responsável pelo nosso comportamento, emoções e cognição. Eu li em algum dos trabalhos que essas proteínas se depositam e acumulam no cérebro alguns dias após o trauma.

Quando sofremos impactos repetidos no crânio, o nosso cérebro tenta reparar o tecido lesionado com uma resposta inflamatória. Porém, quando os traumas são repetitivos e frequentes, essa resposta inflamatória se torna crônica, agravando e acelerando o progresso da doença. Além desses, existem outros mecanismos já estudados e ainda em investigação que são responsáveis pelo desencadeamento da doença.

O que isso tem a ver com o muay thai?

Como eu citei antes, é comum nos esportes de combate (como o boxe, o muay thai, o kickboxing, o MMA, etc.) que as lutas acabem em nocaute ou que o adversário seja impedido de continuar por não ter mais condições de competir após inúmeras pancadas fortes na cabeça.

No manual de regras da Federação Internacional de Muay Thai Amador (IFMA), publicado em abril de 2023, quando um atleta sofre um nocaute ou quando o árbitro interrompe a disputa devido a recebimentos de golpes fortes na cabeça que o tornam indefeso ou incapaz de continuar, o atleta fica impossibilitado de voltar a lutar ou de participar de sparrings por um período de um mês. Caso aconteça novamente com este atleta num período de 90 dias, ele deve ficar afastado por 90 dias. Se em um período de um ano acontecer novamente, o atleta deverá ficar afastado por 12 meses após o terceiro episódio.

É importante entender que, segundo o manual, essa regra serve tanto para competições quanto para treinos. Caso aconteça um trauma muito grande durante um treino, a mesma regra deverá ser aplicada. Ou mesmo, se o atleta for derrubado várias vezes em lutas consecutivas ou sofrer muitas pancadas na região da cabeça, também deverá ficar afastado por um período de 4 semanas, caso o médico decida que isso é necessário. Além disso, o manual também fala que, para voltar às atividades, é necessário que o atleta apresente uma liberação de um médico neurologista, após a realização de exames como eletroencefalograma (ECG) e, se necessário, uma tomografia computadorizada com contraste. Lutadores do estilo muay matt, que costumam se expor bastante aos golpes, precisam tomar um cuidado especial quanto a isso.

Não houve atualização dessas regras no manual do IFMA publicado este ano, logo, acredito que as regras de 2023 seguem em vigor.

Como prevenir a ETC?

Se você chegou neste ponto do texto, é possível que já esteja com o celular na mão ligando para o mestre para cancelar a matrícula e desistir de tudo, mas não é bem assim. Os riscos existem, é claro, mas não precisamos desistir do esporte.

Na verdade, o pesquisador Mortmer analisou os estudos de três autores em 1985 e concluiu que, embora os lutadores amadores e profissionais (com frequência de lutas semelhantes) tenham basicamente o mesmo risco de desenvolver lesões neurológicas, mas com boa supervisão e mantendo uma frequência baixa de lutas, a incidência dos sintomas é relativamente baixa.

Além disso, os artigos ressaltam a importância de se usar equipamentos de proteção durante os treinos, como luvas mais acolchoadas, protetor bucal e até mesmo capacete, visando mais segurança para os praticantes de lutas.

Gostaria de incluir, ainda, a importância de se estar em uma academia de lutas onde a segurança dos alunos e atletas é levada em consideração. Sem o direcionamento adequado por parte do professor, alguns alunos podem acabar usando uma força desmedida e desnecessária nos treinos. O sparring não é um duelo de vida ou morte. E um bom lutador não é aquele que bate com força o tempo todo, mas o que sabe controlar seu fogo interno. Fica a dica aí!

Além disso, já ouvi relatos de treinadores que forçaram seus atletas a continuar uma luta com o discurso absurdo de “aqui a gente não desiste” ou “desistir é para os fracos” e, no fim, o atleta se machucou gravemente. Não estamos no Cobra Kai dos anos 80-90.

Por fim, enquanto eu pesquisava sobre o Maguila, vi um corte de uma entrevista do Popó para um podcast, onde ele disse que um dos fatores que fez o Maguila ficar no estado em que ficou, após anos de uma carreira brilhante no boxe, foram os treinos excessivamente pesados. É realmente triste ver que um atleta gigante não pôde aproveitar e desfrutar dos frutos da sua carreira na velhice porque sua saúde foi negligenciada. O que o esporte nos ensina é que a nossa força precisa ser devidamente dosada; e que o legado do Maguila e de outros grandes lutadores nos serve de lembrete para lutarmos de forma inteligente e segura.

Sawadee krap!

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Referências Bibliográficas:
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AREZA-FEGYVERES, Renata; CARAMELLI, Paulo; Nitrini, Ricado. Encefalopatia traumática crônica do boxe
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Castellani, Rudy J.; Perry, Geroge. Dementia Pugilistica Revisited. Review. Journal of Alzheimer’s Disease
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