O povo tailandês é cheio de rituais, superstições e amuletos da sorte. Nascido em berço budista, o Muay Thai herdou muitos desses símbolos sagrados que, mesmo na modernidade, persistem nos ringues pelo mundo afora.
Um dos amuletos importantes nesse esporte é o phuang malai, uma guirlanda de flores que é colocada no pescoço do lutador. O escritor, historiador do Muay Thai e editor-chefe do site Acervo Thai, Tiago Simão, disse em um vídeo que, na Tailândia, este amuleto é colocado no lutador após a luta. No Brasil, no entanto, é comum ver o lutador entrar no ringue usando o objeto antes da luta começar.
O phuang malai se popularizou na Tailândia durante o reinado do Rei Rama V. Nessa época, eles eram confeccionados à mão, com flores de jasmim, pelas mulheres que trabalhavam na corte. Ainda hoje, ele segue sendo um símbolo de prosperidade, sorte e espiritualidade. Porém, além de tudo isso, o phuang malai também simboliza a impermanência das coisas.
O budismo diz que a nossa natureza é transitória. Nada dura para sempre. Como disse Cássia Eller, “o ‘pra sempre’ sempre acaba”; ou mesmo nas palavras de Lulu Santos, “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Enquanto escrevo este texto, penso nas flores de jasmim caídas no chão do térreo do prédio onde moro. Elas desabrocharam, caíram, murcharão amanhã e logo deixarão de existir. Nada permanece. Nem a beleza das flores, nem as glórias das nossas vitórias, nem as nossas derrotas mais dolorosas
Tudo tem um fim
Há cerca de um ano ou mais, lembro-me do quanto fiquei impactado com a série “Carol e o Fim do Mundo” (Netflix). A animação conta a história de uma mulher de meia-idade que está encarando o fim do mundo junto com toda a raça humana. Acontece que um gigantesco meteoro está se aproximando da Terra e, em poucos meses, todos morrerão. Não há o que fazer.
A humanidade decide “aproveitar” a vida, viver com toda a intensidade, buscar novas experiências. A Carol, por sua vez, não sabe bem o que fazer com o tempo que resta. A maioria das experiências que as pessoas estão vivendo não fazem sentido para ela. Tudo o que ela quer é a normalidade da vida, mesmo em meio a todo o caos: ir ao dentista, bater o ponto no trabalho, sair com os amigos para um happy hour.
Essa série escancara a impermanência de uma forma tão dura que, em vários episódios, eu me vi emocionado e confuso. O fato de você acordar todos os dias, olhar pela sua janela e ver um corpo celeste enorme se aproximando e não poder fazer nada é desconcertante. Do mesmo modo, o phuang malai, que em um dia embeleza o pescoço de um grande lutador, mas no dia seguinte murcha, denuncia a realidade da qual teimamos em fugir: nada é permanente. Grandes lutadores um dia se aposentaram enquanto uma nova geração levanta seus cinturões com brilho nos olhos.
O phuang malai e o caminho do meio
Quem, em sã consciência, colheria flores, confeccionaria um colar com elas para, no dia seguinte, as ver murchar? Da mesma forma, eu assistia à série e me perguntava: “Quem trabalharia sabendo que o mundo vai acabar em cerca de sete meses?” ou “Quem faria novos amigos diante de uma tragédia anunciada?”.
A grande verdade é que, embora não exista um megameteoro do lado de fora da nossa janela (acabei de conferir, não há), nós também passaremos em algum momento. Esta semana, refletindo sobre esse tema e sobre a série, percebi que finalmente entendi o porquê a personagem buscava a normalidade da vida em meio ao caos. Aquele era o caminho do meio, uma resposta à impermanência. Aceitar a realidade e buscar o equilíbrio.
O caminho do meio, no contexto do Muay Thai, é não se apegar a uma vitória em um sparring ou em uma luta, tampouco se apegar a uma derrota. O caminho do meio é se libertar da necessidade de aprovação e validação de seus mestres e colegas e apenas se comprometer com a sua jornada. O caminho do meio é também não classificar um treino como bom ou ruim, e apenas aceitar que tudo serve para a nossa evolução.
Quando você tira o foco do resultado — do dia em que chegar à graduação máxima, do dia em que vencer o mais valente dos lutadores do CT, do dia em que alcançar o chute mais alto que a sua mobilidade permitiu — você entende que o resultado não é tudo. Nossa motivação deve estar na constância e na disciplina, que vão servir como âncoras para o nosso barco quando uma tempestade de desânimo nos sobrevier.
Lutar contra a impermanência é a maior de todas as loucuras. Sempre há alguém melhor do que você. Um elogio ou uma crítica não definem a sua jornada. Sua vitória não o torna invencível, tampouco sua derrota o torna um fracassado. Apenas siga o fluxo.
A impermanência como ponte para a transformação
Quando conheci o conceito de impermanência, confesso que não fiquei muito animado. Não lido bem com mudanças ou incertezas. Não conseguia olhar para essa ideia e achar que isso era bom. Mas isso mudou esta semana. No vídeo “Thich Nhat Hanh – A Prática da Impermanência” do canal Corvo Seco, o autor diz a seguinte frase:
“a impermanência é o que nos possibilita a transformação”.
Fiquei fascinado por isso, porque eu finalmente entendi que, uma vez que nada é permanente, podemos experimentar mudanças em nossas vidas. É graças à impermanência que podemos desfrutar da melhora nas técnicas de Muay Thai. Graças a ela, tenho fé de que não vou chutar baixo sempre. Graças a ela, graduação após graduação, eu sigo evoluindo.
Logo, quando o professor para várias vezes no treino e faz diversas observações sobre sua execução de técnicas, isso não significa que você seja ruim ou que não possa melhorar, mas que você é capaz de aprender algo e evoluir. A derrota não é o oposto da vitória, mas uma oportunidade de transformação.
Quanto ao phuang malai, ele não representa somente que as flores murcharão amanhã, mas que elas embelezam e perfumam o hoje, que é a única coisa que temos. Em outras palavras, aproveitar o treino de hoje, a aula de hoje, seus professores de hoje, é tudo o que importa. E mesmo que as flores murchem amanhã, sua essência e perfume ficarão marcados.
O lutador não é aquele que vence sempre, que tem bom desempenho todos os dias, que executa bem todas as técnicas, mas aquele que não se apega à impermanência e se permite ser transformado pelo processo. O phuang malai é, em última instância, onde a beleza e o caos, a força e a fragilidade se encontram e dão as mãos.
Sawadee krap!
Deixa nos comentários como esse texto tocou em você e qual trecho mais te chamou atenção. Se possível, compartilha esse texto nas suas redes sociais ou grupos de mensagens. Vai me ajudar muito! Se te interessar, cadastra o seu e-mail no campo abaixo para receber notificação quando sair texto novo. Gratidão!