O castor

4–6 minutos

Todas as manhãs, ele se colocava ao pé da árvore.

Começava o dia bem cedo, quando o sol e os pássaros ainda estavam para acordar, e o orvalho deslizava na superfície das folhas. Durante aqueles dias, a árvore era seu templo, seu local de esforço e contemplação. Passara horas para escolhê-la — não porque fosse a melhor, mas por puro instinto ancestral.

Cravava os dentes na madeira dura e ia roendo-a até, aos poucos, criar espaço. De quando em quando, topava com um ou outro nó — a parte mais resistente do tronco —, o que o obrigava a diminuir o ritmo e alternar a força. Até que eles também cedessem.

Quando ouvia algum estalo na madeira, parava no mais completo silêncio para ouvi-la, para entendê-la. Apenas pelo som, era capaz de saber para que lado ela cairia.

Era habilidoso em ouvir.

Ele não resistia às pausas.

Parar era parte essencial do processo.

Por vezes, olhava concentrado para o topo da árvore, dezenas — até centenas — de vezes mais alto que ele, sabendo que, mais cedo ou mais tarde, conseguiria derrubá-la.

E, apesar do som da mata, do gralhar das aves, podia ouvi-la — e ouvir-se — num contraponto harmônico, como se suas almas conversassem.

Quando os estalos aumentavam e o pinheiro já não mais resistia, ele abria espaço para que tombasse.

Após a queda, fazia-se um longo e profundo silêncio na floresta.

Estava feito.

[Autoral]

Sempre que eu escrevo um texto novo, apenas sento com um esboço mental e coloco no bloco de notas do celular as ideias que tive. Mas, curiosamente, este texto foi o mais trabalhoso até agora. Parei inúmeras vezes para relê-lo, reescrevi parágrafos inteiros, e esta é, provavelmente, a versão número dez — ou quase isso — que escrevo, sempre buscando entender onde eu queria chegar.

Eu poderia tranquilamente abandonar o texto e dizer: “acho que não tô na vibe agora”, ou “acho que não é pra ser”, ou mesmo “esse tema não funciona”. Mas decidi continuar pela constância, mesmo que, para isso, eu precisasse diminuir o ritmo.

Depois que assisti a um reels sobre castores e tive esse insight, não queria simplesmente largar a ideia.

Quando pensei em falar sobre o castor, que pausa para ouvir para que lado a árvore irá cair, acho que, inconscientemente, fiz igual a ele. Isso acabou me mostrando, na prática, que essa ideia se aplica a qualquer coisa na vida da gente — inclusive ao Muay Thai.

Tenho dito aqui que tudo é processo, e que ele, por vezes, exige que façamos algumas paradas para escutar o que está dentro de nós ou para ler o ambiente ao nosso redor. Não se vive de um fôlego só, de uma só empreitada. Nosso corpo fala quando é hora de parar.

Fala por meio de um cansaço que nunca passa, por meio de dores físicas, da respiração, dos batimentos cardíacos… fala até pelas nossas vísceras. Não podemos ignorá-lo quando ele pede descanso. Já vi pessoas passarem mal durante o treino por estarem doentes e ainda assim insistirem em treinar.

Aprendi com Jeff Eisenberg, no livro Buda Guerreiro, que não é o aluno mais fervoroso que vai chegar lá. Sentir-se culpado por ter faltado a um treino, ou treinar lesionado, é algo que precisa ser repensado.

Esta semana, por exemplo, decidi faltar a um treino porque estava bastante cansado e queria fazer uma sessão de yoga à noite, sozinho. Eu sabia que, se fosse para o treino, claramente não faria a yoga — que naquele dia era prioridade —, então tomei a decisão mais óbvia, embora eu adore treinar.

Como ouvir a si mesmo?

Silenciar tudo o que está em excesso

O excesso de expectativas, de autocobrança, de comparações… tudo isso nos tira do estado de presença no treino.

A intencionalidade nos movimentos — nos golpes, nas caminhadas, nas esquivas — e a atenção à respiração são caminhos para ouvir a si mesmo, ao professor e ao seu parceiro de treino.

O que sobra quando tudo silencia é o que precisa ser visto com mais clareza.

Atenção aos sinais do corpo

Nosso corpo é extremamente sensível ao nosso estado emocional.

Pode estar relaxado ou tenso, calmo ou inquieto. Ele reflete como estamos por dentro.

Por isso, é preciso observar nossos pontos de tensão e dor, e aprender a respeitar nosso tempo, dando espaço para o corpo se regular junto com a mente.

Nomear sensações e emoções

Nomear emoções é uma tarefa relativamente difícil, principalmente quando falamos de emoções negativas.

Nossa geração não foi ensinada a sentir, e sim a evitar.

Num ambiente de luta, por exemplo, é comum haver resistência em admitir medos, desconfortos.

Se no ringue não podemos acusar dor, carregamos essa ideia pra fora dele, jogando tudo o que não queremos sentir para debaixo do tapete — que é a nossa psique. E uma hora, isso volta.

Ouvir o seu tempo

Uma árvore não cai de uma hora para outra. Um texto assim não se escreve da noite pro dia. Nossa evolução no Muay Thai nem sempre será urgente. Leva tempo até o corpo aprender a base, o giro do quadril, a guarda, as defesas, a mentalidade de luta.

Ninguém nasceu pronto.

Escrevo isso quase como um mantra para mim mesmo. Fazer as pazes com o próprio ritmo é se dar o direito de errar até poder acertar.

Uma hora a árvore cai.

Sawadee krap!

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