Segunda graduação – tenho minhas próprias montanhas para escalar

3–5 minutos

Hoje foi meu segundo exame de graduação. No final da aula, enquanto estávamos sentados no tatame, senti algo muito confortável e leve no corpo. Enquanto o professor chamava meus companheiros de treino à frente, retirei do meu braço o prajied amarelo para abrir espaço ao novo, o amarelo e branco. Quando o coloquei no colo e o encarei por um tempo, senti uma felicidade enorme. Lembrei que ontem disse a mim mesmo: “Não quero decidir como devo me sentir amanhã, mas quero me sentir feliz.” E aconteceu exatamente como desejei.

Sempre que participo de um exame, tento lembrar que é um momento único — o de hoje, por exemplo, nunca mais vai se repetir. Não sei se os mesmos colegas estarão nos próximos, nem quantos novos alunos estarão dividindo o tatame comigo. Isso me ajuda a manter a mente no presente, na experiência real, em vez de ser levado pela onda de nervosismo e ansiedade por desempenho. Seria um grande desperdício deixar o dia de hoje passar despercebido!

Por isso, quando olhei para aquele prajied no meu colo, senti um carinho enorme. Ele faz parte da minha história, e sou grato por ela em todos os seus pormenores.

Aquele prajied sempre será uma lembrança de como tudo começou, do meu primeiro dia no CT, do meu antigo professor, da minha primeira turma. Vai me lembrar das vezes que corremos na ladeira e de quando comemorei ao passar de cinco para sete voltas. Vai me lembrar do dia em que corri puxando um pneu às 14h30, sob um sol escaldante, com o almoço ainda sendo digerido — minha alma quase saiu do corpo. Esse prajied também vai me lembrar dos feriados e domingos em que acordei cedo para treinar sombra e pular corda sozinho no salão do prédio, enquanto meu vizinho — um garoto com TEA — me observava da janela – meu colega de treino sempre atento e silencioso.

Eu poderia listar os motivos que me fizeram começar no Muay Thai, mas, se você me perguntar hoje por que continuo, juro que não sei responder. Os motivos iniciais se tornaram secundários.

A verdade é que o Muay Thai conquistou tanto espaço na minha vida que já não consigo me imaginar sem ele.

No final do ano passado, assisti a uma animação japonesa que me marcou muito: Viagem ao Topo da Terra (Netflix). Na época, anotei no celular uma fala do personagem principal que encerra o filme:

“Não precisa haver um motivo. Para alguns, as montanhas não são um objetivo, mas um caminho. E o topo é só um degrau ao longo do caminho. Uma vez lá, tudo o que resta é continuar.”

O prajied amarelo no meu colo — e agora o amarelo e branco, que usarei a partir de amanhã — representa as inúmeras montanhas internas que superei com o Muay Thai, não apenas na graduação, mas no dia a dia dos treinos. O “topo”, simbolizado pelo prajied preto, é importante, mas definitivamente é só um degrau — não o fim. Cada vez mais isso se confirma pra mim.

Em certo momento do filme, o protagonista comete um grande erro. Esse erro o faz desaparecer por anos. Isso mostra que até pessoas brilhantes enfrentam altos e baixos. Comigo, mero mortal, não seria diferente.

Ainda assim, apesar dos erros e inseguranças, amanhã estarei no tatame tentando outra vez, porque, errando ou acertando, batendo ou apanhando, ali é o meu lugar. “Não há como impedir alguém de fazer o que quer, mesmo que pareça loucura.” (Trecho do filme citado).

Por fim – perdão pelo spoiler, mas o filme acaba sem esclarecer se o protagonista chegou ao topo da montanha. Seu corpo é encontrado no caminho. Não se sabe se indo ou voltando. O topo nunca foi o foco — o processo, sim. E da mesma forma, sinto que, a cada vez que coloco minhas luvas, a caneleira e escolho não desistir, estou escalando minhas próprias montanhas — um treino por vez. Sempre que eu olhar para esse prajied amarelo, vou lembrar que já fui muito mais longe do que imaginava poder ir. E, ao olhar adiante, verei o quanto ainda há para conquistar. 

Tenho certeza de que vou chegar lá.

Nas palavras do músico Renato Russo:

“Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo.”

Sawadee krap!

>> Este texto foi escrito em 04/05/25 e publicado no blog anterior.

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