No início de 2024, decidi que a palavra do ano seria construção. Pensei nela quando, nos primeiros dias de janeiro, notei que um casal de bem-te-vis começava um ninho na minha janela. Decidi que também queria tentar algo novo, algo que me desafiasse.
Pensei na água e no frio na barriga que sinto ao entrar numa piscina. Como não sei nadar, achei que esse seria um bom ponto de partida. Mergulhei de cabeça na ideia (perdoem o trocadilho brega). Pesquisei vídeos no YouTube, adicionei touca, óculos e sunga no carrinho da Shopee, procurei lugares para fazer aulas… Mas, apesar da empolgação, não fui além disso. A rotina, aos poucos, tomou esse lugar.
Em minha defesa, o ninho dos bem-te-vis também não vingou. Bastou uma chuva muito forte, a primeira chuva de janeiro, que o ninho ficou em frangalhos. Os pássaros entenderam cedo que aquela janela não era um bom lugar para construir ninhos. Se reconstruíram em outro lugar. Eu também fiz o mesmo.
Na metade do ano, vi uma foto do meu irmão dando aulas de muay thai. Falei com ele e marcamos a primeira aula. Saí maravilhado. A sensação de socar alguma coisa era libertadora. Era exatamente o que eu precisava. Pouco mais de um mês depois, decidi me matricular num CT. Fazia sentido, na minha cabeça, ter aula com outras pessoas. É verdade que sou péssimo com interação social — parte por timidez, parte por não me achar interessante, parte por preguiça mesmo, parte por antipatia e parte pela dificuldade de me encaixar —, mas sabia que não dava pra passar o resto da vida treinando com a mesma pessoa. Foi assim que, aos trinta anos, comecei no muay thai.
Não vou dizer que me sinto atrasado, que comecei tarde e tudo o mais. Isso não pesa pra mim. Uma das coisas que aprendi logo ao entrar no CT foi que há pessoas começando o tempo todo — principalmente na turma da noite —; muitas, inclusive, bem mais velhas do que eu. Apesar disso, não vou mentir: a idade às vezes me pega. Eu sei que não sou mais um adolescente, mas, por alguns motivos, isso também é bom.
O que ganhei começando no muay thai aos 30
Começar no muay thai aos 30 me deixou satisfeito porque sinto que tenho mais maturidade emocional para lidar com as frustrações de aprender algo novo — e, acredite, as frustrações não são poucas. Essa maturidade — que, confesso, não é tão linear quanto gostaria — me serve de apoio quando fracasso nas técnicas, nos sparrings, nos chutes altos, nos treinos mais duros. Ela também me ajuda a ouvir meu corpo e reconhecer meus limites.
Além disso, consigo, em alguma medida, baixar um pouco o ego quando piso no tatame e não me deixar levar pela vaidade ou pela necessidade de aprovação. O respeito pelos colegas e pelo professor são coisas que eu não abro mão. Nada disso seria possível para o Danilo de 15 anos atrás. Ele certamente já teria desistido.
Começar no muay thai aos 30 é uma escolha persistente — não pensando no meu “eu” do futuro, mas no do presente. Eu realmente amo fazer isso. E faço isso por mim.
Como se tudo isso não bastasse, o muay thai ainda é um escape da rotina e do estresse do trabalho. É impressionante como me reenergizo no tatame. Mesmo nos treinos mais puxados, a sensação de voltar pra casa revigorado é única. Então, obrigado, Danilo de 31, por proporcionar isso a si mesmo.
Os desafios de começar aos 30
O que mais tem pesado nesse processo de quase um ano é o meu corpo — que não responde mais como o de alguém de 18. Às vezes estou em paz com isso. Outras vezes, me vejo brigando contra o inevitável. Posso citar o cansaço acumulado do dia, que faz com que, quando chego ao treino à noite — muitas vezes no último horário do CT —, eu já esteja no modo “fiz tudo o que pude e pude bem pouco”.
Mas, além disso, há os problemas físicos. Não sei se são da idade ou se já existiam e só agora incomodam. Falo do quadril, da pouca mobilidade, do encurtamento dos músculos… Os incômodos são vários. Por isso disse que nem sempre estou em paz com isso. Olho para colegas mais jovens — e até alguns mais velhos — e sinto uma pontinha de inveja, sabe? A comparação é quase sempre inevitável e quase sempre desleal. Queria chutar alto como eles. Queria não sentir dor na lateral do quadril ao levantar a perna. Queria ser mais flexível para agachar durante os alongamentos. Queria sentir menos dores no pós-treino. Mas meu corpo diz “não” — e o que me resta é dizer “ok, vou fazer o melhor que posso hoje” e me contentar com o que deu pra fazer.
O que tenho aprendido com o muay thai aos 30
O muay thai tem me ensinado a ter mais presença — dentro e fora do tatame. Hoje consigo perceber melhor meus sentimentos, meus padrões de comportamento, meus desconfortos. Mesmo sendo um esporte de combate, tem sido uma ferramenta incrível de autoconhecimento. Isso, confesso, foi uma grande surpresa.
Tenho aprendido também a ser mais disciplinado. Antes do muay thai, passei alguns meses numa academia de musculação, mas sem muitos resultados. Eu até era frequente, mas não conseguia manter a dieta, o que me deixava super frustrado. Hoje, quase 10 kg mais leve desde que comecei, percebo que a rotina, a preparação para a graduação e a vontade de me superar têm me ajudado a atingir meu peso ideal.
Agora, de todas as coisas que poderia citar, o maior benefício que o muay thai me trouxe até aqui é a autoconfiança. Vou fazer um post só sobre isso, mas já adianto: é imensa a satisfação de sentir que sou capaz de me defender — e de defender quem amo. Não falo só do ponto de vista físico, numa briga. É muito mais do que isso. É sobre não se sentir frágil. É sobre aprender a revidar. É sobre se impor. É sobre encontrar forças que eu nem sabia que existiam.
Enfim, sou muito grato por ter decidido começar essa jornada — e mais ainda por decidir, diariamente, continuá-la, custe o que custar.
Como disse Natália Sousa no podcast Para dar nome às coisas:
“Tentar não porque vai dar certo, mas porque vale a pena”
Sawadee krap!
Deixa nos comentários como esse texto tocou em você e qual trecho mais te chamou atenção. Se possível, compartilha esse texto nas suas redes sociais ou grupos de mensagens. Vai me ajudar muito! Se te interessar, cadastra o seu e-mail no campo abaixo para receber notificação quando sair texto novo. Gratidão!
Você é incrível. Amo você!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Obrigado pelo apoio, meu amor!
CurtirCurtir